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FSC Mag | Suprassumo digital e a morte da morte do físico

Suprassumo digital a morte da morte do físico

Por Justin Small

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“Amantes do impresso estão simplesmente confundindo o prato com a comida”

– Douglas Adams​

Douglas Adams tem um argumento engraçadinho, mas estaria ele esquecendo que a experiência de comer é tão importante para nós quanto a comida em si? Irá o digital eventualmente nos tirar os pratos com os quais comemos nossa comida? Serão os pratos também digitais, assim como tudo que é sólido em nossas vidas?

Colocando de uma maneira simples – o digital vai destruir a volúpia do nosso mundo físico ao substituir muitos dos nossos amados objetos físicos por substitutos atemporais e digitais?

O digital, dizem, mudará a própria essência da nossa infraestrutura social e das nossas vidas cotidianas. A revolução a recém começou e em breve entraremos num mundo no qual nada terá valor se não for aumentado com uma avalanche de dados da internet, próximas melhores ações e feedbacks dinâmicos ao vivo. Aparentemente. E nós meio que acreditamos nisso, porém, não foi nos dada uma escolha, já que não será necessária. Esse novo mundo digital só nos será uma opção se quisermos participar desse mundo do futuro. 

Testemunhar homens crescidos escrevendo artigo depois de artigo sobre como o novo iPhone poderá ser, e todo o frenesi que isso causa, é testemunhar a projeção de nossa vida existencial angustiada sobre objetos tecnológicos. Houve uma reação similar frente ao surgimento dos livros digitais e seus leitores digitais com muitos prevendo o desaparecimento completo do mundo impresso. Todos nós louvamos nossa habilidade de levar 500 livros para nossas 2 semanas de férias na praia e vemos isso como uma prova da nossa vitória evolutiva frente ao domínio físico. A possibilidade da possibilidade de talvez nós finalmente terminarmos Guerra e Paz durante nossas férias ou de começar a ler Dom Quixote ou Uma breve História do Tempo de uma vez por todas. Tudo isso ao mesmo tempo. O digital nos deu escolhas, e escolhas estão um passo mais próximas da escolha em si e da ação. DEUS ABENÇOE O DIGITAL.

Porém. As coisas parecem ter voltado um pouco atrás. Os Luddites apareceram. O impresso está retornando. Os livros físicos que começaram a desaparecer no éter digital, subitamente começaram a reaparecer, átomo de papel por átomo de papel, e estão reaparecendo em lojas e casas por todos os lados. O impresso está lentamente se recuperando. A pergunta é – seria isso uma tendência e teríamos atingido o Pico Digital? Ou isso é apenas um ataque flanco de guerrilha que será esmagado pelo digital numa demonstração de poderio? É possível que isso seja o início de um entendimento de que um pedaço de metal movido a bateria não é páreo para um livro impresso sexy – o entendimento de que o digital é um complemento das nossos modos físicas, não uma substituição.

Eu penso (e espero) que seja a última opção – e aqui estão quatro razões pelas quais o fim do físico e do livro físico não acontecerá.

 

  • 1. Nós precisamos sentir nossos cinco sentidos (e nossos cinco sentidos precisam nos sentir)
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  • Nós somos feitos de pele e de osso e de cheiro e de som e de toque e de gosto. A sensação da capa de um livro antigo do Penguin não é algo que estamos preparados como espécie para desistir (ainda). Um livro é tanto mais que as palavras em nossas cabeças, tanto mais que as imagens que criamos em nossas cabeças – um livro é uma totalidade de interações sensuais que compõe a experiência de ler um livro. E é a memória desse sentido de intertravamento que compõe a leitura de um livro físico – coisa que nenhum livro digital pode criar. Nossas necessidades humanas são multidimensionais e multissensoriais. O digital nos nega a totalidade de nossos sentidos. Livros digitais não tem toque, nem cheiro ou sons naturais. Nós somos animais de cinco sentidos – e todos esses existem no mundo – e precisamos de livros de cinco sentidos.

 

 

  • 2. A eternidade desafia nossa mortalidade (e nos faz sentirmos fracos)

 

Não há como contornar isso, nós somos mortais e nós iremos morrer. Eu, você, todos nós. Nascemos sabendo disso e muito das nossas vidas é impulsionado por isso. O que nos ajuda a chegar a um acordo com o fato da nossa aniquilação é que a maioria das coisas ao nosso redor envelhece conosco. Carros, casas, mesas de café, cachorros, árvores. E essas marcas da idade nos aproximam desses objetos e incorporam história e companheirismo àquelas coisas que nos acompanham. Nossos objetos contam nossa história através de seu (e nosso) uso ao longo do tempo. Mas, objetos digitais não envelhecem. Livros digitais nunca desbotam, nunca dobram, nunca marcam. Livros digitais nunca levam um banho de vinho numa tarde preguiçosa de sábado, formando uma mancha que servirá para, toda vez que for vista, instantaneamente nos lembrar daquela mesma tarde. Nossas posses vivem conosco e morrem conosco, servindo de espelho para nossa viagem através do tempo, e como empáticos companheiros, eles gentilmente envelhecem conosco. 

Os objetos digitais, ao contrário, mostram as criaturas fracas de curto prazo do passado que somos, todos falíveis e fracos demais. Nossos livros digitais não mostram compaixão para com nosso dilema mortal. Seus números 1’s e 0’s, assim como répteis, não têm a habilidade de se importar com a gente.

 

 

  • 3. O intelecto está necessitado de uma vitrina (e o ego de um show)

 

A orgulhosa estante, uma exibição gentil do intelecto do seu proprietário, um livro por vez. A peça de arte de muitas camadas no canto da sala de estar, 20 anos de produção, cada livro achado, lido, discutido, no qual se embebeu e se fundiu, reconhecido como nosso, esquecido, lembrado, emprestado, perdido, recuperado e recomendado. Uma vida inteira vivida e falecida através de livros. Livros carregam em si partes de vidas aonde quer que vão, e biblioteca transportam vidas e comunidades através dos séculos. Onde viverão as incríveis prateleiras digitais? Quem irá vê-las, discuti-las, compartilhá-los? Como irá o pavão intelectual exibir o seu ou a sua destreza literária? O digital nos roubou nossas bibliotecas e irá, se nos deixarmos, roubar nossas estantes vaidosas. 



 

  • 4. Nós precisamos de uma saída de emergência da interferência digital (e de um abrigo da tempestade)

 

Interrupção é a nova solidão. Não há um momento no qual o digital não está tentando agarrar nossa atenção e nos mostrar algo mais importante do que o que estamos fazendo, pensando ou dizendo. É uma possibilidade real que a poesia irá morrer já que poetas modernos não conseguem achar tempo – entre aqueles momentos em que não estão atualizando seu Instagram com fotos de todas suas produções cotidianas ou daquela torrada de abacate que fizeram pro café – para escrever qualquer coisa digna de ser lida. O digital é um stalker que tem as chaves da nossa casa. Nós precisamos, desesperadamente, criar bunkers sem wi-fi para os quais podemos escapar. O desaparecimento de nossas bibliotecas nos roubou um desses espaços. Mas, as lojas de livros vieram ao resgate. Essas livrarias são as novas igrejas, locais para reflexão silenciosa e proteção da tempestade digital. E livros impressos são o novo alimento não-digital que nossas almas precisam nesses tempos difíceis – nos reconectando com nossos cinco sentidos pré-internet e nos ensinando a sentir novamente, um sentimento por vez, sentindo cada um deles sem a necessidade de postar os mesmos no Facebook para caçar likes. 

Nada é verdadeiro, exceto a mudança, assim parece. O mundo mundo, mas ao mesmo tempo ele continua o mesmo. O básico da nossa vida cotidiana não muda há séculos, mas a tecnologia atual tem uma promessa mágica de renovação. Enquanto saturamos isso com propriedades divinas, nos ajoelhamos e proclamamos a chegada de nossa salvador, a luta se dá entre físico e digital. O físico e o digital irão existir durante um tempo, mas, o que emergirá será um espaço integrado no qual o digital não é um mundo separado, mas sim uma constante e despercebida sobreposição. O físico talvez ganhe algumas batalhas que lhe renderão partes centrais das nossas vidas concretas ao longo do caminho – mas o digital irá ganhar a guerra ao ir para o subterrâneo. E a verdadeira briga para viver vidas físicas concretas vai, então, começar. 

Tudo isso se funde no ar e se torna sólido novamente – mas dependerá de nós lutarmos para formarmos esse novo sólido. Livros físicos são um bom lugar para começar. A morte da morte do físico foi extremamente exagerada.




 

Texto original por Justin Small | Fundador do Future Strategy Club

Tradução por Rafaela DeNegri 

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