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FSC Mag |Super estrelas de qualquer preço (estão) perdendo a arte do extraordinário

POR DAN SIMMONS 

DAN SIMMONS DEFENDE QUE OS ÍCONES DO FUTURO TENHAM MAIS TEMPO PARA SE ENCONTRAREM – ASSIM COMO FEZ MARILYN MANSON. SEM ISSO, NÓS IREMOS ACABAR COM UM CARREGAMENTO DE INFORMAÇÕES QUE NOS LEVARAM A LUGAR ALGUM, SUPER ESTRELAS QUE BRILHAM MUITO, MAS QUE DERRADEIRAMENTE DESAPARECEM PARA SEMPRE NA ESCURIDÃO DE ONDE VIERAM.

 

É muito fácil culpar o Napster, um disjuntor pioneiro da tecnologia, radicalmente contornando as rotas para o mercado de uma indústria musical inchada e preguiçosa. Porém, na nossa pressa de sempre atribuir e a culpar a tecnologia pela mudança e pela incerteza resultante disso, nós frequentemente perdemos as razões sutis e as perdas de outras condições humanas que possibilitaram essa ruptura em primeiro lugar. Se você assistir o recente especial da HBO The Defiant Ones, verá a história de Jimmy Iovine e do Doutor Dre e como seus caminhos se encontraram e convergirem, em um primeiro momento criativamente, ao redor do desenvolvimento do Interscope Records e depois, comercialmente, com o lançamento hiper acelerado da marca e marketing dos fones Beats, os quais eles venderam para a Apple por 3 bilhões de dólares. Esse é o último episódio do documentário premiado. Essa história aparece no episódio anterior. De alguma maneira, eu havia conseguido me lançar aos 22 para ser colocado como o principal canal de marketing e plataforma londrina para o Interscope records, traduzindo seus atos que estavam despontando dos Estados Unidos para o sucesso internacional com mais de 30 escritórios ao redor do globo. Atualmente, eu talvez tenha “Desenvolvimento de marcas” no meu currículo, mas naquela época éramos apenas meu chefe e eu como os chefes da Interscope Internacional de Nova Yorke. Se você assistir todo o documentário, verá que, na verdade, a história começa muito antes, quando Jimmy lovine e Dr Dre estavam sentindo e aprimorando sua arte nos estúdios. Eles não eram empresários inicialmente. Primeiramente e de forma mais importante, eles eram músicos. Eles aprenderem com o tempo como reconhecer talento e, então, crucialmente davam a aquele talento a quantidade certa de espaço, tempo, coragem e amplificação para que a alquimia emergisse quando e onde fosse. “A grandeza pode vir de qualquer lugar”, dizia lovine. É essa consciência que provavelmente transformou a Interscope na atual Motown e que possibilitou que Marshall Mathers se tornasse EMINEM, Sthephanie Germanotta se tornasse Lady Gaga o que Brian Warner se tornasse Marilyn Manson. E é aqui que eu entro. 

 

Minha primeira manhã no trabalho, meu chefe Max joga o arquivo de Marilyn Manson na minha mesa e fala “Leia isso, escute seu velho catálogo e o disco novo no qual estamos trabalhando” (o agora considerado marco, “Antichrist Superstar”), “É o seu trabalho o tornar um ícone e uma estrela de estádios.” Nas próximas 2 semanas eu o viria a conhecer pessoalmente pela primeira vez – pelado, literalmente, no seu camarim depois de um show num pequeno clube “Dan, esse é o Manson” (todo mundo do seu círculo interno o chama de “Manson”). Em 3 anos – contando festas de lançamento fetichistas, festas de prostitutas em Hamburgo, esposas estrelas pornôs na Itália e, tragicamente, o massacre de Columbine – ele tinha se tornado aquele ícone internacional e era, de fato, o artista mais requisitado para fazer shows em estádios. 

Eu trabalhei com muitos artistas ao longo do tempo, mas Manson sempre me chamou atenção porque ele é o exemplo clássico de alguém que literalmente se inventou. Ele é citado dizendo que quando ele encontrou as palavras “Marilyn Manson” pela primeira vez como dizer “É ISSO AQUI” – uma forma quimérica de magia futurista abrindo todas possibilidades de ser. Ele não jogou no Google, não tweetou, não deu like no Insta. Ele sentiu e se tornou e quando ele conheceu lovine ele teve permissão para ser e amplificar, porque ele estava numa gravadora que de fato entendia que “a grandeza pode vir de qualquer lugar”.

Tem outra história que ilustra isso, é a história de outro brilhante musicista (não existem muitos por aí) que conta a história de assinar Massive Attack, provavelmente um dos acontecimentos ingleses mais influentes dos últimos 30 anos. Ele conta que quando assinaram com eles, a decisão foi dele e de mais 2 ou 3 pessoas que confiaram e, de alguma maneira, conseguiram ver que poderia existir algo extraordinário naqueles maconheiros de Bristol. Crucialmente, uma vez que se foi tomada a decisão de assinar a banda, eles deram 3 anos para integrantes acharem esse “algo extraordinário”. Esse tempo se tornou o “Blue Lines”, que até hoje aparece no Top 10 de álbuns clássicos da terra da rainha. Atualmente, segundo ele, isso nunca iria acontecer. Por que? Porque aquela mesma decisão tomada na fé, hoje teria que ser justificada com estatísticas e dados, que eles não teriam, o que tornaria a ideia impossível de vender. Avançando para os dias de hoje e não apenas para o mundo moderna da indústria musical. Toda indústria e setor criativo é agora observado pelos tentáculos incapacitantes da morte que vem desse fetiche por dados. Todo mundo que passa tempo o bastante na frente de uma tela se preparando e preparando sua audiência é um influencer. Todo artista é uma marca antes mesmo de achar aquele “É ISSO AQUI” que dá a eles a liberdade para serem quem são.

“Invente a si mesmo. Você não precisa da permissão de ninguém para fazer isso. Porém, o faça com risco. Com inteligência”

Algo mudou. Atualmente os vídeos da reação de alguém ao ver e ouvir a música de outras pessoas de seus quartos pode chegar a 1.000.000 visualizações. Um pequeno grupo de modelos pode fazer com que as pessoas paguem 10.000 dólares para ir a um festival onde se come sanduíche feito em casa e se dorme em barracas de tecido sintético. Uma influencer fazendo acrobacias bizarras pode se tornar uma grande vendedora de vinho. O que acontecerá se isso continuar? E se, clique por clique, nós estivermos destruindo aquele espaço temporal que é necessário para aquele “algo extraordinário” se encontre, se desenvolva e floresça? Isso está levando a um mal-estar mais profundo sobre confiar que quem seguimos e o espaço que eles habitam, criam e influenciam não é simplesmente alimentado ou corroído pelas métricas – sejam elas de dados ou financeiras. A morte por mil likes. Superestrelas a qualquer preço. 

 

De uma maneira estranha, o Brian que se tornou Manson foi um precursor disso. Ele amava um circo macabro e a mensagem/promessa/apelo que ele passava era que não importa quem você é e de onde você veio. Invente a si mesmo. Você não precisa da permissão de ninguém para fazer isso. Porém, o faça com risco. Com inteligência. Se permita ter tempo para se surpreender. Cometa erros. Arrisque tomando uma decisão polêmica. Pratique a arte do extraordinário.

 

 

Nota de rodapé: Massive Attack é uma banda inglesa da cidade de Bristol, formada no ano de 1988.

Dan Simmons 

 Fundador da Propelia

 

Dan Simmons tem mais de 20 anos de carreira ajudando startups e scale ups a elevarem seu pensamento, marca e IP estrategicamente para assim desestabilizar novos setores do mercado. Ele é o fundador da Propelia e tem supervisionado o desenvolvimento de produtos inovadores que permitem que clientes tenham uma rápida resposta a incerteza e desestabilização. Dan é um líder de pensamento em como a desestabilidade pode ser reposicionada de um ponto de vista criativo, estratégico e planejado.

 

Originalmente publicado pela FSC Magazine

Traduzido por Rafaela De Negri

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