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Por que um futuro indecifrável é tão difícil

por Alex Hillman, do Stacking The Bricks

Ao longo dos últimos meses, eu tenho pensado muito sobre a incerteza, e relacionada a ela, a ilusão de certeza. Muitas coisas estão difíceis agora, e muito mais difíceis pra uns do que pra outros, mas muitas das pessoas com quem eu conversei nas últimas semanas concordam em um ponto: 

 

Se você está vivo e saudável, uma das partes mais difíceis “desses tempos” é não ter nenhum conceito cabível de futuro. Eu não estou falando em prever o futuro. Ninguém realmente consegue fazer isso. Eu estou falando de ter uma ideia do que vem pela frente, e de quanto tempo vai levar pra chegar até lá. Nós estamos presos sem saber por quanto tempo ficaremos nesse estado de transição esquisito e desconfortável. Se vai piorar antes de melhorar. Onde nós estamos na jornada, digamos assim. 

 

É sobre expectativas. É praticamente impossível segurar expectativas nesse momento, e pior, quando nós nos agarramos às expectativas, colocamos a nós mesmos numa posição muito dolorosa. 




E nós somos muito, muito ruins em viver sem expectativas.

 

Esses tempos eu vi esse vídeo curtinho do Hank Green que explica porque nós somos tão ruins em viver sem expectativas. O Hank compara partes da nossa experiência atual com a experiência de quebrar um osso ou receber um diagnóstico médico.

 

Nesse clipe de 11 minutos, Hank explica que em situações como o osso quebrado, existem dois tipos de dor: 

 

  • Existe a dor física
  • E existe a dor mental de saber que a vida não vai ser a mesma por um tempo.

Nesses momentos, e agora, uma parte de como nós lidamos com as experiências dolorosas (sejam elas grandes ou pequenas) é procurando o conforto de expectativas cabíveis.

 

O médico nos diz quanto tempo vamos ficar com o gesso, ou quais sintomas nós vamos precisar aprender a gerir daqui pra frente. Mas em 2020, muitas dessas “respostas” que nós estamos procurando ou são muito vagas, ou são alvos em movimento. Nós queremos saber como as coisas vão ficar e quanto tempo vai levar pra tudo isso acabar, mas nós literalmente não temos como saber até chegar lá. 



 

E isso é difícil.

 

O problema em fazer escolhas num futuro indecifrável

 

Você também pode olhar para esse argumento sobre o viés de gerir um negócio. A Amy (Hoy, sócia do Stacking The Bricks)  tem uma frase que se repete em todo o nosso material: “Começar um negócio é basicamente comprar uma briga com a entropia.” Eu amo essa frase por vários motivos, mas o maior deles é que ela coloca a escolha como uma companhia, e até uma aliada, do caos.

 

Parte do motivo pelo qual nos tornamos bons de negócio é porque (graças a muita prática) nós ficamos bons em fazer decisões embasadas em ambientes que ainda não foram desbravados. 

 

Na verdade, o mais fundamental que ensinamos no 30×500 é como avaliar os fatos que você de fato tem e confiar em você mesmo pra fazer um palpite embasado que completa os fatos que você ainda não pode ter porque eles ainda nem aconteceram. É assim que você consegue lançar produtos que as pessoas previsivelmente querem e compram. Você não pode realmente fazê-las comprar. Mas você pode fazer o meio de campo de forma que tudo corra a seu favor. 

 

O problema é que, no caos de 2020, essas habilidades estão sendo testadas de novas formas. Tempo e certeza estão interligados em novas maneiras. Especificamente, a quantidade de tempo em que eu posso ter certeza de algo é pequena. Eu costumava pensar a longo prazo (a partir de seis meses ou um ano, pra mais), planejar a médio prazo (4 a 8 semanas), e trabalhar nesse planejamento diariamente. Agora, o mais longe que eu consigo pensar razoavelmente é 30 dias, e eu tenho sorte se conseguir planejar pra terça que vem. E isso é…assustador. 

Mas claro, nem tudo é ruim

 

Ainda tem dinheiro sendo gasto em várias indústrias. Pessoas e negócios ainda têm problemas e gastam dinheiro para resolver esses problemas. O comércio meio que dá um jeito.

                   

Mas, se você está acostumado a fazer planos reagindo a influências externas como OPORTUNIDADE e COMPETIÇÃO, você vai ficar bem bugado da cabeça nesses tempos. Se você define a si mesmo e as suas escolhas pelo mundo lá fora, e o mundo lá fora é profundamente instável, você inerentemente se torna instável.

Então como a gente continua?

Pra muita gente – e eu me incluo nessa – os últimos meses têm sido uma montanha russa projetada pra te desorientar, te confundir e te virar de ponta cabeça. Só que a gente não sabe quanto tempo a montanha russa dura. A gente nem sabe direito quando entrou, ou que cara tem a saída. A minha teoria agora é que focar numa saída impossível de enxergar é uma distração muito dolorosa para não ver o que está bem diante do nosso nariz. 

 

Então não, eu não tenho uma solução mágica. Essa não é a moral desse post. O que eu quero deixar claro é o seguinte: 

 

Se você passa seu tempo encarando a saída (por exemplo, “quando tudo isso vai acabar/voltar ao normal”) você vai, sem dúvida, perder muitas das suas melhores oportunidades de aliviar e encontrar calma agora, e de começar a construir as coisas que nós precisamos para viver um futuro melhor. Pode  ser que nem tenha uma saída, a não ser que você desempenhe um papel ativo em criá-la.

 

Publicado originalmente em Stacking The Bricks, escrito por Alex Hillman. 

Traduzido pela equipe da Fábrica do Futuro. 



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