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Porque ferreiros são melhores startupeiros que você | Stacking The Bricks por Amy Hoy

Tem uma minissérie documental da BBC ótima chamada Mastercrafts. Eu recomendo fortemente que você  encontre uma maneira de assisti-la, agora mesmo. Mastercrafts é sobre trabalhos manuais que levam muito tempo para dominar, como por exemplo: 

 

  • ferraria
  • pedraria
  • construções com palha (thatching)
  • tecelagem à mão
  • criação de vitrais
  • carpintaria e marcenaria não-industrializada



Atividades em que mal pensamos hoje em dia, indústrias obsoletas e rurais. Ainda assim, ainda existem pessoas que sonham em aprender esses ofícios, e é aí que entra o Mastercrafts. Cada episódio segue os altos e baixos de três aspirantes a estudantes durante um curso intensivo de seis semanas nas mãos de um artesão mestre. Eu já assisti à série duas vezes, e amei as duas vezes. Porquê acontece que aprender a moldar ferro e a tecer à mão são paralelos perfeitos para fundar uma startup. Quem quer que tenha feito o casting do programa fez um trabalho fantástico. Cada episódio mostra uma grande variedade de personalidade nos estudantes. E porque é tipo um reality show – por mais que seja um reality show refinado, que usa smoking – essas personalidades vêm à frente. Enquanto os estudantes estão moldando pedra, pendurando colmo, cortando vidro, torneando a madeira num torno operado pelo pé dentro duma tenda, ou martelando ferro quente, eles estão sendo agressivamente humanos. Nós vemos o seu melhor lado…e o pior. 

 

Toda falha que você vê num fundador de startup, você vê desenrolando no Mastercrafts. E se você por acaso parar pra assistir tudo em uma ou duas sentadas, os padrões vão saltar aos seus olhos. 



Comportamentos ruins que você vai reconhecer

Aqui estão algumas das falhas de personalidade que eu notei: 

Muitos dos estudantes em diferentes episódios são obcecados com “se expressar” em vez de seguir o briefing (a especificação pro trabalho). Eles perdem tempo precioso se enrolando em vez de fazer algo de útil. Outros se perdem na rebeldia e no tédio infantil quando se trata da repetição dos estágios iniciais de aprendizado, em vez de se comprometer de coração com o básico. Muitos outros usam o perfeccionismo como uma arma contra a sua própria realização…uma arma, e uma desculpa. Muitos demonstram uma boa dose de autoimportância, não justificada – eles falam bem de si mesmos, eles esperam vencer, eles tratam o conselho dos mestres como irrelevante, ou desabam diante da mais sutil crítica. 

 

Outros se envolvem numa amarga autodepreciação, também não justificada – choramingando fatalisticamente, “Eu nunca vou conseguir fazer isso”, quando encontram o mais simples dos obstáculos. Eles querem jogar a toalha no primeiro percalço. E no segundo. E no terceiro. 

 

Por fim, e talvez o mais grave, muitos dos estudantes parecem ter nem um pingo de paciência. Eles esperam pular direto pros resultados, direto pra parte divertida – pra parte criativa. Eles querem botar a carruagem antes dos bois. Eles acham que são especiais. Então eles batem o pé com petulância quando os seus atalhos não dão certo. 


Esses estudantes afirmam que querem dominar um ofício, mas resistem à própria natureza do “artesanato”. Mesmo que só pra entrar no programa de aprendiz eles tenham que ter se inscrito, feito uma entrevista e atrapalhado as próprias vidas por seis ou mais semanas!

Pera aí, então a série é péssima?

Eu tenho certeza que devo estar fazendo o programa parecer um show de horrores de petulância, mas nada poderia ser menos verdade. Todas, exceto algumas poucas dessas divas, são transformadas ao longo de seis semanas pelo trabalho simples, honesto e difícil, e as recompensas de fazer algo real. Eles se vêm realizando coisas extraordinárias…assim que decidem deixar de bobeira. 

 

A transformação deles é algo maravilhoso de assistir. É a VIDA. E como é a vida – porque, se você assistir à série, vai reconhecer seus colegas, seus amigos e provavelmente a si  mesmo – nós não podemos deixar de perguntar…



Por quê? Por que essa é a experiência universal? 

Isso é algo que passei meia vida ponderando. A minha conclusão (em progresso) é a seguinte:

O motivo pelo qual os estudantes resistem ao processo a cada passo do caminho é porque todo o conceito que eles têm de si mesmos está em risco.

Eles nunca trabalharam num ambiente onde os resultados são tudo que importa. Eles foram mimados pelos pais, pelo sistema escolar, e pelos seus chefes. O trabalho deles é abstrato; eles raramente vêem o produto final do seu trabalho sendo utilizado, eles praticamente nunca conhecem alguém que use o produto do seu trabalho na sua forma final. 

 

Até agora, eles sempre trabalharam por aprovação, abstraídos dos resultados: a pergunta sempre foi, “Essa resposta é o que o professor quer?” ou “O comitê gostou dessa ideia?” – não “Isso é verdade?” e “Isso ajudou o cliente?”.

 

É quase como se Galileu Galilei largasse a sua bola e a sua pena do topo da torre e, enquanto elas caíam, buscasse convencer o seu público através de um argumento em vez de simplesmente olhar.  

 

É assim que muitos de nós crescemos, vivemos, aprendemos e trabalhamos. E isso é tóxico.



Crianças mimadas

Você já teve contato com uma criança verdadeiramente mimada? 

É tentador pensar em crianças mimadas como pestinhas frios e calculistas, calmamente utilizando chiliques como ferramentas de manipulação. Mas se você foi uma criança mimada, você sabe que isso está longe de ser verdade. Quando uma criança mimada não consegue o que quer, ela sente como se o mundo estivesse girando completamente fora de controle. Ela é uma vítima das próprias emoções (e realmente se sente tão mal quanto está demonstrando).se girando completamente fora de controle. Ela é uma vítima das próprias emoções (e realmente se sente tão mal quanto está demonstrando).

Uma criança mimada literalmente não consegue lidar com a realidade onde as coisas não acontecem da forma que ela espera. Ela é prisioneira dos próprios sentimentos.

E uma criança mimada literalmente não sabe como lidar quando as suas desculpas não colam. Quando o mundo falha em entregar o resultado esperado para uma criança mimada, ela sente que o seu mundo está acabando. O seu ego reage de acordo com isso, para forçar uma mudança externa, para proteger o seu modelo mental do universo.

Soa familiar?

Quando você mora e trabalha numa vida isolada – separado do resultado final do seu trabalho – você é mimado. Você é avaliado muito mais na sua habilidade de agradar e gerenciar os gatekeepers*, pelo do que no produto do seu trabalho. Gatekeepers são humanos, humanos podem ser convencidos a aceitar desculpas. Isso não se aplica a mim. Eu sei, mas. Eu não sou bom nisso. O que eu realmente quero fazer é o seguinte. O cliente disse. Eu tentei o melhor que pude.

 

[Nota da tradutora: Gatekeeper é um termo técnico muito utilizado na teoria do jornalismo, cunhado pelo alemão Kurt Lewin em 1947 como metáfora para a edição e filtro de informações, mas na prática, pode ser aplicado a todos os que têm o poder de escolher o que é prioridade e quais informações são relevantes dentro de uma organização. Num contexto de negócios, pode se referir a uma estratégia de gestão – saiba mais aqui]. 

 

Se encontre num ambiente guiado pela realidade e BUM! As suas habilidades tão afinadas de lidar com gatekeepers são inúteis. Seu ego está em risco. E ele não deixa barato. 

 

A pedra não está nem aí se você teve um dia difícil. O ferro não vai ficar quente por mais tempo só porque você está se sentindo hesitante em bater o martelo. Se você não colocar a palha no telhado direito, vai acontecer um vazamento, e é isso. Não tem espaço pra errar. 

 

Deve ser assustador. 

 

Ah, você deve estar pensando, mas no Mastercrafts, esses estudantes estão sendo ensinados e avaliados por um mestre. O mestre é humano. Eles estão tentando agradar ao mestre. O mestre é um gatekeeper, não? O mestre vai aceitar desculpas.

 

Na teoria, sim. Mas na prática? Não esses mestres. Não existe ninguém mais pragmático que um ferreiro em 2012. Eles são pragmáticos porque eles jamais poderiam sobreviver se não fossem. 

 

Esses mestres sabem como a banda toca. Eles sabem que servem à realidade e a nenhuma autoridade maior. Eles sabem que não tem como dizer não pra realidade. Seja essa realidade uma onde o tecido tem falhas, a pedra não está nivelada, a cadeira quebra, ou cliente dá um calote…os sentimentos deles não importam, as desculpas não vão colar, e não existe crença no próprio valor no mundo que vá mudar isso. 

 

Como o mestre ferreiro disse, quando o cliente pede “mais 10 desse aqui”, eles vão ficar de cara quando você voltar com um design novo, criativo e disser “Mas esse aqui era mais legal de fazer.” E aí você não recebe. 

 

Essa é a condição do século XXI resumida: Nós somos pessoas abstraídas vivendo vidas abstraídas. Nós não sabemos como viver de outro jeito. Quando nós nos vemos batendo cabeça com a dura realidade, sem intermediários, nossos egos choram que nem crianças mimadas, gritam, esperneiam e dão chiliques. 

 

Isso é o que acontece quando essas pessoas abstraídas chegam nas oficinas da artesã mestre no primeiro dia, pensando, “Puxa, eu trabalho bastante com tecido. Eu super conseguiria tecer à mão num tear. As pessoas faziam isso há centenas de anos. O quão difícil pode ser?”

 

A resposta, claro, é difícil pra caralho. Absurdamente difícil. Tecer à mão é tipo tocar um órgão, só que com a possibilidade de quebrar, enosar e entortar. Cometa um erro e lá e se vão horas – talvez dias! – só de configuração.

 

Dominar um ofício é DIFÍCIL. É DIFÍCIL, e os pestinhas mimados que moram dentro deles pensaram que seria fácil. Não admira que eles se rebelem. Não admira que eles se escondam atrás do “perfeccionismo” ou se irritem amargamente com o tédio

 

É essa mesma atitude que te leva a abandonar o seu projeto no primeiro sinal de problema. A mesma atitude que faz você se enrolar eternamente em funcionalidades. Atrasar o marketing, acreditar que se você construir, eles virão. Ou até construir e lançar a ferramenta. Buscar feedback dos seus colegas em vez de dos seus clientes…dar mais atenção aos investidores do capital de risco em vez das pessoas que vão de fato pagar pelo seu produto. Ostentar a sua energia em “inovar” em vez de dominar o básico.

 

Infinitamente mais iniciativas falharam por causa de mau comportamento infantil do que por causa do mercado, da economia, dos clientes, ou dos concorrentes. 

 

 Começar o seu próprio negócio é um motor da realidade: 

 

Não trabalha no básico todos os dias? Você vai falhar. 

 

Não divulga o seu produto constantemente? Você vai falhar.

 

Não resolve as dores dos seus clientes? Você vai falhar. 

 

Não lança a sua ferramenta? Ha! 

 

Aqui está: empreendedorismo em quatro frases.



Ter o próprio negócio é de fato um ofício de mestres. Ataque esse ofício com rigor, honestidade e de coração aberto – e se comprometa a dominar a sua criança mimada interna – e veja o quão longe você vai chegar. A realidade vai tornar sua amiga mais querida. As suas perguntas motivadoras vão evoluir de “Isso me faz soar inteligente?” para “Isso motiva um cliente a comprar?” – de “Puts, o que me apetece fazer hoje?” para “Como eu vou melhorar a vida dos meus clientes hoje?”

 

Você vai fazer coisas com as suas mãos e com o seu cérebro que vão ajudar as pessoas, pessoas que você vai poder conhecer, conversar com, e aprender com. E você vai se sentir realizado. 

 

Se você não está nessa até o fim, nem comece. Se você é especial demais pra praticar o básico, nem comece. Se você prefere se sentir validado do que atingir um resultado, nem comece. Se você prefere defender o status quo do que crescer, desista agora mesmo. 

 

Essa é a decisão que você vai encarar todos os dias: 

Você quer nadar na piscininha das crianças e se rebelar no primeiro sinal de que a coisa ficou séria Ou você quer construir um negócio e uma vida reais, com a realidade como sua aliada preferida? Você quer surpreender a si mesmo com o quanto você pode realizar?

Você tem o que é preciso para se tornar um mestre artesão?

 

 

 

 

 

 

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