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O medo de começar de novo | Stacking The Bricks

por Alex Hillmann

No seu livro “Bom a ponto de não poderem te ignorar”, Cal Newport sistematicamente (e muitas vezes, de forma bem-humorada) constrói um argumento contra o conselho profissional famoso de “seguir a sua paixão”. No lugar dele, Cal enfatiza a importância de construir habilidades criativas para o sucesso e encontrar o trabalho que você ama no meio do caminho. 

 

Esse conselho profissional faz muito sentido pra todo mundo que esteja construindo uma carreira do zero. Mas durante uma releitura do livro eu me peguei questionando…como esse conselho pode mudar para pessoas que estão num ponto de inflexão nas suas carreiras, em vez de no começo? 

 

Pense nisso. Quando foi a última vez que você foi realmente um iniciante na sua atividade profissional? Sinceramente, tente lembrar. Feche os olhos e lembre das suas primeiras tentativas no que quer que seja que você faça profissionalmente hoje. Se você for como 99,9% dos humanos, você não foi instantaneamente bom na sua primeira tentativa. Na verdade, você foi meio que péssimo. Mas se você se tornou bom, você o fez como todo mundo faz: através da prática intencional (uma das estratégias-chave de Newport) aplicada ao longo do tempo. 

 

E na medida em que o tempo passa, se você continua praticando, você fica ainda melhor. Mas o que ninguém fala – inclusive o Cal – é o que acontece quando você se esquece de como é ser iniciante.  Sobre o que acontece – psicologicamente falando – quando um “expert” escolhe (ou precisa) ser um “Iniciante De Novo”.

O ponto de inflexão do Iniciante de Novo

Acontece que eu tenho um ponto de vantagem meio que único que me permite testemunhar esse ponto de inflexão em primeira mão. Todo ano, por oito anos, minha sócia Amy Hoy e eu ensinamos um curso sobre negócios chamado 30×500 para centenas de pessoas criativas – muitas são designers e desenvolvedores talentosos. O objetivo delas é passar do emprego e da consultoria para uma situação onde toda ou parte da sua renda vem de um negócio baseado em ativos. Em termos da indústria, como transicionar de serviços para produtos. No nosso próprio dialeto, “Empilhar os tijolinhos”. 

 

 Você sabe, nossos alunos são pessoas criativas que estão no seu pico profissionalmente. Pessoas que têm uma boa formação e um entendimento melhor ainda das suas habilidades e atividades. Pessoas que muitas vezes são das mais bem-pagas nos seus campos. 

 

Quando os alunos se matriculam no nosso curso, a escolha é deles. Eles comprometem seu dinheiro suado para investir no seu futuro profissional. Eles podem assistir os seus colegas aprendendo e praticando a fazendo progresso palpável. Eles já sabem que atingir os seus objetivos é possível – e até provável – se seguirem os passos no nosso currículo. 

 

Na maioria dos casos, o vento sopra a favor deles. Mas…

“Eu sou ruim nessa coisa nova”

..uma vez que eles passam dos primeiros passos do processo, eles entram em pânico. Eles inventam desculpas, qualquer coisa pra procrastinar o trabalho em si. Eles voltam para hábitos antigos. No pior dos casos, eles desaparecem completamente. 

 

Eu estou falando de pessoas inteligentes, curiosas, muitas vezes orgulhosamente racionais que são capazes de uma coisa que muitos têm inveja: criar coisas com as suas habilidades já existentes. 

 

Mas quando esses profissionais criativos sentaram pra aprender uma nova habilidade do zero, onde pouquíssimas das suas habilidades já existentes se aplicam, eles simplesmente perdem a cabeça. 

 

Preste atenção nessa última parte: onde pouquíssimas das suas habilidades já existentes se aplicam. 

 

Isso é especialmente doloroso quando pessoas criativas internalizam o seu trabalho criativo como parte da sua identidade. O fato de que “Eu sou ruim nessa coisa nova” rapidamente se confunde com um “Eu sou ruim” muito mais emocional. 

 

Para muitos profissionais experientes, faz tanto tempo desde que eles realmente foram iniciantes que eles se esqueceram da sensação de não ser bom em alguma coisa. Quando você tem poucas (ou nenhuma) das suas proficiências para te ancorar na sua expertise, você pode se sentir desde desorientado até paralisado. 

 

E paradoxalmente, quanto mais “de alta performance” você for em algumas áreas da sua vida, pior esse efeito pode ser. Porque como você pode imaginar, pensar “Eu sou ruim” não é um modo de pensar produtivo para se estar quando você está tentando aprender algo novo, mesmo se você racionalmente saiba que isso vai melhorar a sua carreira criativa. 



Passando pelo ponto de inflexão do Iniciante de Novo

 

Durante todas as nossas revisões e ajustes no 30×500 ao longo dos anos, a taxa de sucesso dos nossos alunos continuou crescendo, mas cada turma nova vinha com uma nova onda de ansiedade do “Iniciante de Novo”. 

 

Foi aí que decidimos usar nossa habilidade de antecipar essa ansiedade para ajudar os nossos alunos a passarem por ela. Aqui estão três lições que nós ensinamos aos nossos alunos para tentar antecipar os sentimentos que vêm com o ponto de inflexão do “Iniciante De Novo”, e vencê-los: 

  • 1. Saiba o que está em jogo

  •  

Isaac Newton sabia o que dizia: um objeto em repouso tende a continuar em repouso. O mesmo é verdade para pessoas que construíram uma carreira de sucesso para si mesmas onde elas estão confortáveis com o ponto onde chegaram na vida. 

 

O problema com conforto e complacência é que acaba sendo um porto seguro para aqueles momentos onde o ponto de inflexão do “Iniciante De Novo” é mais doloroso. Em vez de seguir em frente e fazer um esforço, nós racionalizamos a nós mesmos até voltar pra zona de conforto. Para tentar passar do ponto de inflexão, nós precisamos reconhecer que a complacência é a nossa pior inimiga. 

 

Nos seus momentos de fraqueza transicional, quando você tem a maior chance de se recolher pro conforto, você tem que conseguir lembrar a si mesmo do motivo pelo qual você está nesse caminho em primeiro lugar. Por que se dar o trabalho? O que está em jogo? 

 

Talvez o seu chefe idiota tenha acabado de te dar outro prazo impossível. Talvez você tenha perdido mais um dos jogos de futebol do seu filho porque você teve que ficar até mais tarde no escritório. 

 

Quando essa dor momentaneamente borbulha pra superfície, é muito mais fácil ficar motivado e tomar uma atitude. Esses são os momentos onde nós dizemos “Eu realmente vou pedir demissão”, ou “Eu realmente vou começar a fazer exercício”

 

Mas quando a dor externa passa, ela deixa de ser mais pesada do que a dor de fazer algo novo e um pouco assustador. E aí você para de se dedicar. 

 

Para vencer o ponto de inflexão do “Iniciante De Novo”, manter a sua dor visível ajuda. É um pouco contra intuitivo (e talvez um pouco masoquista), mas funciona na missão de te ajudar a não desistir. 

 

“Mais um prazo impossível”

“Perdi o jogo”

 

Escreva os seus num post-it. Cole o seu post-it na borda do seu monitor ou no espelho do seu banheiro ou do lado do velocímetro do seu carro. Faça esse post-it com a sua letra, pra que não fiquem dúvidas de que é um bilhete feito por você. Algumas pessoas gostam de tirar um print do bilhete e colocar como tela de fundo do celular. 

 

Onde quer que você coloque, se certifique de que ele está visível para aqueles momentos onde o ponto de inflexão do “Iniciante De Novo” te faz considerar um retiro para a sua zona de conforto. 


  • ENTENDA O QUE ESTÁ POR TRÁS DAS SUAS PERGUNTAS (E TENHA CERTEZA DE QUE ELAS SÃO REALMENTE PERGUNTAS)

 

Grande parte da dor de ser um “Iniciante De Novo” vem de ter perguntas que você não pode responder. Especialistas estão acostumados a ter as respostas, ou pelo menos a saber como encontrar as respostas. 

 

Esse senso de certeza é estilhaçado quando você está recém começando a aprender algo novo, que faz toda nova pergunta parecer muito maior do que ela realmente é. 

 

Dois tipos de perguntas são especialmente comuns: 

 

Pergunta número um: Eu estou fazendo isso do jeito certo? 



Ser um iniciante quase sempre significa tentar coisas que não parecem “naturais”. Mas raramente tem mais fundamento esse sentimento além do fato de que você nunca fez aquelas coisas antes. Nós indexamos demais o sentimento de “Eu vou fazer isso errado!”…antes mesmo de termos tentado dar o primeiro passo. 

 

Então quando uma pergunta ou incerteza brotar na sua cabeça, tire um momento pra ver se você tem a habilidade de responder essa pergunta sozinho. Anote ela em algum lugar, de repente até deixe passar uma noite para ver se você continua se sentindo da mesma maneira no outro dia de manhã. Você pode perceber que já sabe a resposta! 

 

Se a sua pergunta está te impedindo de tentar, pergunte a si mesmo: “Qual é o PIOR dos casos possíveis que pode acontecer de verdade se eu não acertar isso 100%? Eu vou continuar progredindo se eu acertar isso só parcialmente? Eu poderia tentar fazer isso pra ver o que acontece, sem colocar ninguém em risco?”

 

Em muitos casos, 10% “certo” e 90% “errado” ainda é melhor pro seu progresso do que não fazer absolutamente nada.

 

Pergunta número dois: “E se…?” 

 

Pensar sempre alguns passos à frente, tipo uma partida de xadrez, é uma boa estratégia. Mas o que mais acontece são pessoas criativas deixando suas imaginações correrem soltas e criando todo tipo de pergunta que elas PODEM ter que responder no futuro. Perguntas do tipo “E se…” são baseadas num cenário teórico no futuro que ainda não aconteceu com você, e tem poucas chances de acontecer em breve. 

 

Amy e eu gostamos de chamar esse fenômeno de perguntas “De que cor eu devo pintar o nono banheiro na minha mansão” ou “E se eu usar o tipo errado de cera no meu Lamborghini sobressalente?” …porque elas são perguntas que não importam até você ter uma mansão com nove banheiros, ou tiver um Lamborghini dando sopa…se você tiver essa sorte. 

 

Não deixe cenários imaginários que estão VÁRIOS passos à frente de onde você está agora te impedir de fazer o trabalho para avançar na sua trajetória hoje. 

 

USE PEQUENAS VITÓRIAS PARA CONSTRUIR TRAÇÃO

 

Um dos maiores (rá!) erros que eu vejo as pessoas fazerem em todos os aspectos do seu trabalho é como elas calibram as suas expectativas. Isso é um território especialmente perigoso para especialistas se tornando iniciantes de novo. Nós começamos animados, apesar de sermos ruins. Lembre-se: esse processo leva tempo e prática aplicada até nós começarmos a nos sentir “bons” em alguma coisa, o que quer que seja essa coisa. 

 

Se a gente não se torna bom o suficiente, rápido o suficiente, a frustração começa a se instalar. Kathy Sierra chama isso da “trincheira da mediocridade”. 

Percebeu alguma coisa? Aquele espaço entre a Trincheira da Mediocridade™️ e a Trincheira da Paixão™️…o ponto de inflexão do “Iniciante De Novo”. 

 

Para passar desse ponto de inflexão, você precisa ter tração. E nada constrói tração como tentar algo e ter sucesso de primeira. Parece óbvio, né? 

 

Então por que tantos iniciantes começam colocando a sua primeira expectativa incrivelmente alta?* 

 

Quando as suas habilidades existentes não se aplicam a um novo domínio de expertise, você não pode colocar as suas expectativas baseadas nas suas performances passadas em outros domínios. 

 

Então, o que você usa como base para calibrar as expectativas? Pequenas vitórias hoje. 

 

O truque – se é que podemos chamar de truque – é modelar as suas expectativas para serem “acima” de onde você está agora…mas onde as chances de sucesso estão estatisticamente a seu favor. 

 

O professor e diretor de Stanford Dr. BJ Fogg passou 20 anos estudando comportamento humano, e afirma que qualquer mudança duradoura tem mais chance de ser criada começando com algo pequeno – como passar fio dental num único dente, ou fazendo uma flexão por dia. 

 

Precisa de ajuda para entender o tamanho certo das suas pequenas vitórias? BJ oferece um curso gratuito de uma semana toda semana que nós já indicamos para milhares dos nossos alunos, e é um dos melhores preparatórios sobre o tema. 

COMO SER “INICIANTE DE NOVO” EM QUALQUER PARTE DA SUA VIDA

 

Eu aprendi muitas dessas lições enquanto ensinava as pessoas a fazerem a mudança de negócios de serviço para a venda de produtos, mas o ponto de inflexão do “Iniciante De Novo” aparece toda vez que as suas habilidades atuais não se aplicam a um novo projeto. 

 

  •  
  • – Um novo emprego ou uma promoção – pessoas que são promovidas para o nível de gerência ou liderança se vêem precisando aprender todo um novo set de habilidades.
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  • – Habilidades artísticas ou criativas – atividades como desenhar, pintar, tocar um instrumento e até aprender a programar parecem mais assustadoras de aprender quanto mais velhos ficamos, parcialmente por causa do nosso medo de ser um iniciante medíocre.
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  • – Falar em público e escrever – inúmeras pessoas criativas de alta performance têm mais medo de falar em público do que de morrer. E você pode pensar que você precisa começar a escrever artigos de 2000 palavras como esse para começar. Você não precisa. 
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  • – Um novo esporte ou atividade – eu contratei um personal trainer no início de 2016 e percebi que usava essas técnicas para superar as partes difíceis do começo do processo de mudar a minha rotina de atividade física.

 

Realmente, a lista continua. 

 

Toda vez que você está começando algo novo onde muito poucas das suas habilidades atuais se aplicam, você pode usar uma dessas lições, ou todas ao mesmo tempo: 

 

Saiba o que está em jogo. Entenda por que você está se questionando (ou questionando o processo) e comece com pequenas vitórias. 

 

 

 

 

Publicado originalmente por Alex Hillman para o Stacking The Bricks.

Traduzido para o português pela equipe da Fábrica do Futuro.

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