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FSC Mag | Inovando num mundo conectado

ROLAND HARWOOD DEBATE SOBRE AS INCRÍVEIS POSSIBILIDADES DE UMA ERA ILIMITADAMENTE CONECTADA, SOBRE NOSSA CEGUEIRA PERANTE A ISSO E SOBRE AS OPORTUNIDADES DE UM FUTURO EM COMUM QUE VIRÃO

Está sentado na beirada da cadeira, agitando uma das pernas, prospectando sobre o que o futuro guarda? Ou consternado e receoso sobre o que vem pela frente? Seja o que for, você não está sozinho.

Muitos de nós vivemos e trabalhamos num estado de transição entre diferentes projetos, lugares, relações e ideologias. Nada permanece igual por muito tempo. Embora seja difícil prever o que pode acontecer ou como responder a isso, nós estamos a apenas um passo de muitas possibilidades futuras. Estar no limite é inquietante e estressante. Mas é também no limite que se encontram as maiores oportunidades para a inovação. Nós só precisamos aprender a abraçar o desconhecido.

“A periferia é onde o futuro se revela.”

  • – J.G. Ballard

Nós falhamos em reconhecer o quão entrelaçadas e interligadas as nossas vidas são. Nós estamos cegos para as conexões que nos cercam. Entretanto, o futuro se revela cada vez mais nos limites e barreiras desse nosso mundo de redes. Então, nós precisamos abrir nossos olhos para essas conexões ocultas ao nosso redor. Por exemplo, basta haver 23 pessoas numa sala para haver a probabilidade de 2 delas compartilharem aniversário. Esse paradoxo é facilmente comprovado, porém segue como algo não muito intuitivo para a maioria. Nós não percebemos que o número de pares de pessoas cresce rapidamente conforme cada pessoa nova entra na sala (Lei de Metcalfe). Nós preferimos avaliar a situação da nossa própria perspectiva ao invés de notar como o número de possíveis pares aumenta, mesmo que seja um grupo pequeno. 

Com apenas 30 pessoas há 435 possibilidades de pares e 4060 incríveis possibilidades de trios. Esse nível de conexão é muito maior do que a maioria de nós espera ou nota. Isso é importante para que reconheçamos, já que cada uma dessas possíveis combinações poderia resultar em conversas e trocas de informação ou e uma nova ideia ou parceira, se pelo menos estivessemos alertas para essas possibilidades. 

Há muitos outros exemplos dessa notável conectividade que se mantém fortemente desconhecida e invisível. Por exemplo, o historiador científico James Burke passou grande parte da sua vida explorando o que ele chama de teia do conhecimento. Para dar somente dois exemplos intrigantes, Burke descobriu que e como Mozart está diretamente ligado à invenção do helicóptero e como a óptica árabe medieval contribui para a criação do bestseller “My Fair Lady”. 

Essas surpreendentes ligações estão por toda parte, literalmente. Porém, nossa cegueira frente as conexões pode nos fazer perder coisas que podem ser interessantes e importantes. Nós passamos por amigos de amigos todos os dias, mas raramente nos damos conta disso. E quando nós descobrimos essas conexões, as vemos como meros acasos. 

A extensão dessa conectividade está começando a se tornar mais notável e exponencialmente maior, graças a internet e a rede mundial que nos conecta. Assim como nas revoluções anteriores, a mudança cultural que vem com uma nova tecnologia normalmente leva um tempo até ser incorporada e realmente causar mudanças sociais grandes. Aparentemente a revolução digital chegou a esse momento, no qual os efeitos da rede estão se tornando muito poderosos. Como resultado, nossa mentalidade e comportamento estão começando a proativamente conectar pessoas e compartilhar ideias. 

Pontos de conexão

“Nós toleramos a complexidade por não reconhecê-la.”

  • Steven Sloman e Philip Fernback

O mundo em rede criou muitos brilhantes e inesperados benefícios. Como Steven Pinker debate recentemente em seu livro “O Novo Iluminismo”, as nossas vidas agora estão melhores, mais felizes, saudáveis, seguras e ricas do que em toda história humana já registrada por qualquer métrica que seja. Com novas e emergentes tecnologias como máquinas que aprendem, genomas que podem ser mudados e protocolos de segurança, há um potencial considerável para que novos avanços aconteçam e transformem nossas vidas em todas as áreas. 

Uma das consequências desse notável aumento da taxa de progresso é o fato de que muitas organizações estão se dando conta que a solução para quase todos problemas que eles estão enfrentando já existe e está por aí, basta que se saiba onde e como procurar. Eu acredito que o desafio da inovação da nossa época já não é mais sermos grandes inventores ou muito criativos, como aconteceu em outros tempos. Ao invés disso, nós precisamos nos tornar detetives melhores e cuidadosos curadores das redes se quisermos manter nossa competitividade e relevância global. Ao mesmo tempo, nós também precisamos encarar a nova gama que esse mundo em rede nos apresentou. Por exemplo: a crise financeira de 2008 demonstrou que quando algo fracassa nessa rede, um efeito dominó pode acontecer, tendo efeitos muito abrangentes e duradouros para todo mundo, como foram as consequências para o sistema financeiro global. Além disso, plataformas como o Facebook estão sendo usadas para usar e abusar e remodelar o discurso democrático e influenciar o resultado de muitas eleições ao redor do mundo, levando a efeitos surpreendentes. Por último, a falta de ações coordenadas já levou a ONU a concluir que nós temos apenas 12 anos para enfrentar o aquecimento global. Todos esses tipos de desafios afetam o bem estar de quase todos que vivem nesse planeta e com isso não pode ser solucionado por apenas um país ou uma instituição; pelo contrário, esses desafios urgentemente requerem uma colaboração de larga escala a nível internacional.

 

Tal complexidade é quase impossível de desenredar. Essa imprevisibilidade, às vezes conhecida como teoria do caos, é melhor exemplificada pelo popular efeito borboleta que afirma que o bater de asas de uma borboleta pode criar um tornado, independente do tempo e da distância. 

Esse tipo de comportamento está passando a se tornar mais comum e gerando uma vasta gama de consequências não intencionais para todos aspectos da nossa economia e sociedade, os quais nós precisamos aprender a antecipar, administrar e solucionar. 

Então, enquanto nos aproximamos dos precipícios das nossas velhas certezas e dos nossos antigos modos de trabalho, nós começamos a notar que a única constante é a eterna mudança. Essa areia movediça embaixo de nossos pés pode facilmente nos levar a prisão limítrofe entre possíveis futuros, indagando se devemos ir para esquerda ou para direita; mudar ou permanecer, ; ir em direção ao desconhecido ou ficar exatamente onde estamos. 

Alternativamente, se aprendermos a desenvolver nossa visão periférica, começaremos a notar mais essa conectividade complexa que nos cerca. Fazendo isso nós talvez reconheçamos que a incerteza e a desordem podem, na realidade, nos tornarem mais fortes, com as nossas maiores oportunidades surgindo de onde menos esperamos. 

Além do muro

“Mesmo se estiver na faixa certa, ainda será atropelado se ficar parado.”

  • Will Rogers

Essa grande complexidade já impulsionou muitos indivíduos, times, organizações e países para além dos muros de estabilidade e seguridade que eles um dia conheceram. 

Por exemplo, muitas pessoas estão mudando o modo como trabalham para terem mais flexibilidade e autonomia, embora essa não seja sempre uma escolha voluntária. 

A economia do emprego informal é a que mais cresce no mercado de trabalho europeu, também constituindo ⅓  da força de trabalho dos Estados Unidos, com previsão de crescer consideravelmente nos próximos anos, com a mesma mudança ocorrendo em muitos outros países ao redor do mundo. Essa nova tendência pode ser duplamente libertadora e gratificante para vida profissional de muitas pessoas, mas a falta de segurança tem contribuído muito para o aumento recente de questões ligadas à saúde mental. Isso pode levar a pessoas mais vulneráveis sendo facilmente exploradas. 

Assim como mais pessoas trabalharem independentemente, a formação de times temporários é também algo muito mais comum. Esse já é o modo prevalente de trabalho em algumas indústrias. Por exemplo, muitas pessoas trabalhando num filme – desde o produtor, diretor, atores até a equipe de produção – são independentes e só se juntam durante um período relativamente curto de tempo para completar um projeto e após isso o time se desmembra. Essa forma de colaboração está cada vez sendo mais implementada em outras indústrias, em particular nas indústrias criativas como design, propaganda e marketing, já que minimiza despesas e permite que as melhores pessoas colaborem ao invés de apenas aqueles que estiverem disponíveis. Entretanto, a flexibilização traz fragilidade. É importante não subestimar o trabalho duro e a cumplicidade cuidado que são necessárias para que esse tipo de colaboração aconteça de maneira efetiva. 

Outra faceta dessa nossa era conectada é o fato de que a idade média das grandes companhias é de menos de 20 anos, caindo de 60 anos na década de cinquenta, devido a múltiplas forças disruptivas e amplificadas pelas novas tecnologias. Essa tendência está forçando organizações, sejam grandes ou pequenas, a serem muito mais ágeis ao responderem às oportunidades e ameaças ao seu redor. Como resultado, investidores bem sucedidos como Josh Wolfe da Lux Capital já estão atrás da próxima geração de empresas de ponta, as quais ele afirma que serão encontradas nessa zona limítrofe. 

“Nós estamos cegos para as conexões que nos cercam. Entretanto, o futuro se revela cada vez mais nos limites e barreiras desse nosso mundo de redes”

 

Por fim, muitos países estão repensando o quão conectados eles se tornaram. Por exemplo, os britânicos votaram a favor de deixar a União Européia, mesmo a maioria de seus comércios sendo com seus vizinhos mais próximos. Nos Estados Unidos, acordos comerciais tem sido cancelados e a cooperação internacional está decaindo. Em contraste, a China logo poderá ser a maior economia do mundo, em parte por escolher fortalecer seus laços globais através de investimentos como o projeto Um Cinturão, Uma Rota.

Então, em cada nível da nossa economia, do nosso ambiente e da nossa sociedade, nós estamos atualmente experienciando realinhamento, rebalanceamento e recabamento do nosso lugar no mundo e de como isso tudo se encaixa junto. Todos nós podemos nos beneficiar desenvolvendo uma maior resiliência como indivíduos. Juntos nós também precisamos nutrir habilidades de colaboração como times e construir organizações e instituições mais ágeis que empoderem comunidades mais participativas numa escala local, nacional e global. Nenhuma dessas coisas é fácil, ainda mais porque elas não podem serem feitas de maneira solitária. Com isso, nosso desafio coletivo agora é começar a contar histórias melhores que encorajem pessoas a verem o que nós podemos atingir juntos e como chegaremos e lá.

Arrisque

“Quando houver uma encruzilhada no caminho, vá por ela.”

  • Yogi Berra

Então, aqui estamos, no limite daquilo que conhecemos; no precipício de tudo aquilo que é possível; nos limites das organizações e comunidades das quais fazemos parte. A questão mais importante, a que mais importa é: O que nós podemos e o que nós devemos fazer a seguir? 

Se formos encarados por tal futuro tão incerto, nós de fato temos somente duas opções. Ou nós ficamos paralisados e não fazemos nada. Ou nós confrontamos nossos medos; escutamos nossos instintos e simplesmente tentamos fazer algo. 

 Isso pode soar muito óbvio, mas não é tão óbvio assim. Existem muitas razões para evitar tomar decisões que nós sabemos que serão boas para nós. Seja sobre beber muito nas sextas-feiras, insistir num emprego ou numa relação que não está mais tão legal ou ligar o foda-se pra política, seja ela local ou nacional, é muito fácil simplesmente esperar que as coisas melhorem por sua conta própria. Mas lá no fundo sabemos que isso não vai acontecer e que nunca haverá informação suficiente para fazermos uma escolha perfeita. O amanhã nunca chega, então, se escolhermos esperar outro dia o efeito acumulativo disso tudo pode virar uma espiral decrescente com o passar do tempo. 

Alternativamente, tentar algo novo é sempre arriscado e querer certa bravura. Essa vontade de experimentar é a fagulha a partir da qual todas inovações surgem. Devemos escolher arriscar e ver o que acontece, sabendo que cometeremos erros ao longo do caminho. E tudo bem, já que o maior erro de todos seria não fazer nada. Nas palavras dos Irmãos Farrelly: “A vida é como uma esteira rolante. Fique parado e você irá andar para trás. Caminhe e você se manterá no mesmo lugar. É necessário correr um pouco para avançar.”

Dar um salto calculado rumo ao desconhecido pode nos ajudar a evitar o poder sedutor da paralisia de super analisar e a ver além da nossa cegueira às conexões e do nosso pensamento linear. Apenas ao nos empurrarmos mais além e ao fazermos o mesmo com aqueles ao nosso redor, apenas assim nós conseguiremos começar a notar mais claramente as conexões que existem ao nosso redor. Ao fazermos isso nós inevitavelmente começaremos a colaborar muito mais. A complexidade cria uma interdependência que nós leva a precisarmos uns dos outros mais do que nunca.

Com isso, nós iremos naturalmente aproveitar melhor as oportunidades que previamente havíamos passado. Essa virada poderia também contribuir para o ecossistema do qual somos parte; seja em grupos online com interesses em comum ou em comunidades locais e nacionais que compartilham semelhanças culturais e geográficas. Mais pessoas compartilhando mais recursos de novos modos é basicamente a história da civilização. Isso precisa se tornar também o futuro que iremos compartilhar, para que assim consigamos navegar pela incerteza, sobrevivendo e prosperando nesse mundo conectado. 

 

 

Texto traduzido por Rafaela De Negri

Roland Harwood é um conectador impulsivo, Fundador da Liminal e administrador da Fundação Cidades Participativas. Antes disso, ele cultivou a agência 100%open, a tornando uma agência multipremiada, aberta e inovadora que trabalha com a LEGO, Ford e com a UBS em mais de 25 países. Graduado e com um Doutorado em Física, ele também é palestrante convidado, mentor de startups, um astronauta frustrado, compositor para a Sony e pai orgulhoso de 3 crianças.

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