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First Round Review | Guia de Sobrevivência do Fundador #1

Parte 1: Entendendo as condições macro e os sinais do mercado

A First Round é uma empresa americana de capital de risco que sempre traz conteúdos muito úteis e interessantes, focados nos obstáculos e dilemas que fundadores de startups e todos que trabalham com inovação e empreendedorismo enfrentam diariamente. Em tempos de pandemia, não foi diferente: eles liberaram um Guia de Sobrevivência do Fundador – e numa parceria inédita, vamos trazer trechos desse material incrível traduzidos em bom português aqui no nosso blog. Primeiro, começamos do começo: vamos analisar o contexto mais amplo no qual os fundadores de startups estão trabalhando durante a crise – e o argumento de porque eles possam precisar adotar uma posição mais conservadora. 

 

1. Relembre sua história enquanto você faz a sua aposta.

 “Fundadores com 30 e poucos anos provavelmente estavam na faculdade durante a grande recessão de 2007 a 2009 e tudo esteve pra cima e pra direita desde lá. Então meu primeiro impulso é garantir que os fundadores reconheçam que eles estão operando em um ambiente diferente do que eles estavam acostumados”, afirma Josh Kopelman, sócio-fundador do First Round. “Ao mesmo tempo que pode acontecer uma recuperação rápida, acho importante avaliar a probabilidade de isso acontecer. Se você for olhar pra a história das maiores recessões dos últimos 50 anos, a duração média é de 12 meses. E isso não é até a recuperação – isso é até chegar no fundo. Uma recuperação rápida pode ser uma possibilidade – mas uma recessão longa, ou até uma depressão, também é. Saiba no que você está apostando a sua empresa, e force a si mesmo a reconhecer isso.”

 

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O sócio do Josh no First Round, Bill Trenchard, concorda: “Aqueles que não passaram por uma recessão antes e estão esperando por uma recuperação rápida podem estar subestimando o que acontece quando as pessoas param de gastar dinheiro. Quando os orçamentos começam a cair e as pessoas começam a priorizar o lucro antes do crescimento, pode ser incrivelmente difícil vender o seu produto”, ele diz. “Existem vários loops de feedback com a destruição dos pequenos negócios, o que pode destruir uma grande parcela dos empregos no país, o que por sua vez pode destruir o gasto dos consumidores, o que pode levar toda a economia pra baixo. Pra ser mais específico, quase 50% dos empregos nos Estados Unidos são em pequenos negócios. Muitos não estão operando, e têm menos que um mês de caixa em reserva. O gasto do consumidor move a nossa economia, e os níveis históricos de desemprego que estamos vendo podem levar a uma queda enorme nesses gastos”, afirma Trenchard. “Mas a única desaceleração que os fundadores de hoje viveram foi em 2016, que foi uma variação de valoração na bolsa que logo voltou ao normal no trimestre seguinte. Então eu, como investidor, tenho passado muito do meu tempo nos últimos dias passando pelo cenário maior, macro, tentando compartilhar um contexto histórico e a minha própria experiências construindo um negócio durante o estouro da bolha ponto-com e investindo em 2008.”

 

 

2. Cuidado com fundos falsos.

 

“Eu fundei o Half.com em 1999, e nós acabamos sendo comprados e assinando nosso termo bem quando a bolsa estava caindo. E aí em 2008, eu estava construindo o First Round há alguns anos e investindo full-time,” conta Josh Kopelman. “O que me lembra essa época agora é o seguinte: Durante todas as desacelerações que eu vivi, eu vi que as pessoas ficam tentadas a subestimar a gravidade daquela primeira queda. Houve uma série de fundos falsos, tanto na era ponto-com quanto em 2008. Mas como caía e depois se estabilizava, as pessoas diziam “Ufa, ok, já acabou agora.” E aí 90 dias depois, caía mais 10%. Nos primeiros dias, é difícil saber o tamanho do problema com que você está lidando. A mente humana é muito boa em pegar as coisas que ela quer ouvir e ignorar as coisas que ela não quer, chamando de “barulho”. 

 

Uma diferença chave aqui é que estamos lidando com uma pandemia além de uma recessão. “Em 2008, nós estávamos tentando entender quando os bancos iam falhar. Agora, todo mundo está se perguntando: “Os sistemas de saúde vão colapsar?” E enquanto os estímulos governamentais foram o antídoto antes, agora nós estamos literalmente esperando um antídoto, seja na forma de uma vacina ou de uma abordagem antiviral.” 

 

 

3. Fique de olho no efeito locomotiva.

Muitas startups que ainda estão no estágio de seeding ou recém começando, financiadas por capital de risco, podem pensar que a turbulência nos mercados públicos não impacta os seus negócios de uma maneira tão severa, considerando que qualquer possibilidade de uma IPO provavelmente só aconteceria daqui muitos anos. “Os mercados privados se mexem de forma mais devagar – e uma queda de 20% na bolsa de valores pode não necessariamente corresponder a valoração de uma startup – mas existe um efeito locomotiva. Quando os mercados públicos são impactados, essas mudanças vão se reproduzindo em cascada, lentamente, durante vários trimestres,” explica Trenchard. “Mais especificamente, quando as valorações públicas disparam, os preços das séries A e B derivam pra cima também. Quando as empresas públicas e late-stage encontram instabilidades sérias, as startups em estágio de seeding precisam levar isso em conta quando forem pensar na sua capacidade de arrecadação nas rodadas follow-on.

Em outras palavras, está tudo inextricavelmente conectado. É importante levar essa lição pra outras áreas do seu negócio também. Apesar de muitas startups em indústrias muito afetadas estão sentindo o impacto agora, os efeitos cíclicos com os clientes também podem ser fáceis de dispensar. “Os fundadores de startups em early-stage podem não estar vendo nenhuma agitação ainda. Muitos fundadores tiveram um Março bem ok, então eles pensam que Abril vai ser bom também,” afirma Trenchard. “Eles estão pensando, ‘Nós podemos continuar vendendo para os clientes em casa, não tem problema, as coisas vão voltar ao normal rápido.” Mas só porque você acredita que está estabelecido um mercado inafetado, não quer dizer que você vai continuar no futuro. As coisas podem mudar, rápido.” 

 

Pra demonstrar o quão rapidamente o jogo está virando, nós embarcamos numa nova empreitada (inspirada no nosso report, State of Startups) para criar uma pesquisa pulse sobre como os fundadores financiados com capital de risco estão planejando navegar essa crise. Vamos estar compartilhando alguns trechos dos primeiros resultados aqui nesse guia, começando com esse aqui: Em apenas duas semanas, descobrimos que a porcentagem de pessoas que responderam a pesquisa que disseram que foram negativamente impactadas pela pandemia aumentou de 55% para 64%. (Planejamos continuar essas pesquisas pulse para mapear como o sentimento dos fundadores muda rápido, então vem mais por aí.)

 

Quando começa uma recessão, ninguém sabe quando ela vai terminar e o quão fundo ela vai. Essa pode ser a queda econômica mais profunda da minha vida. Não vamos saber por enquanto, mas em vez de esperar pra descobrir, se prepare pro impacto partindo do princípio de que essas condições vão impactar seus clientes de forma ampla e severa”, afirma Mark Bartels, atual CFO da Invoice2Go e antigo CFO da StumbleUpon. 

Alex Rampell, atual sócio da Andreessen Horowitz (e antigamente, CEO e co-fundador da TrialPay), trouxe um argumento parecido sobre efeitos invisíveis: “Muitas empresas pensam que o seu negócio é contra-cíclico. Na TrialPay, nós pensávamos que nenhum negócio poderia ser mais contra-cíclico que dar coisas de graça, não é? Bom, isso era verdade no lado da demanda dos clientes, mas os efeitos em cascata às vezes são difíceis de prognosticar, então não seja arrogante”, ele aconselha. 

 

“Por exemplo: a Trial Pay era a primeira fonte de novos clientes de conta corrente para o banco Washington Mutual em 2008. Nunca ouviu falar do Washington Mutual? Isso é porque ele se tornou insolvente. Nós éramos o melhor canal do banco. Eles ganhavam dinheiro com cada cliente que nós mandamos pra eles, mas o macro-ambiente os matou. 

 

Mais recursos sobre o macro-ambiente: 

 O Foursquare analisou padrões de trânsito a pé: How COVID-19 is Influencing Real-World Behaviors

 No report “Cash Is King”, o Instituto JPMorgan Chase pesquisou as vidas financeiras de 600 mil pequenos negócios em 2016

 Palestra da London Business School: The economics of a pandemic: the case of Covid-19

 Newsletter da Divinations:  Understanding the Covid-19 Recession — What happens when an economy holds its breath?

 

Texto original por First Round Review (https://firstround.com/review/the-founders-field-guide-for-navigating-this-crisis-advice-from-recession-era-leaders-investors-and-ceos-currently-at-the-helm/

 

 

Veja também: