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FSC Mag | Esqueça a informação, vamos falar sobre significado

 

POR LAURA KNIGHT

EM SEU LIVRO “THE TRUTHFUL ART” ALBERTO CAIRO NOS LEMBRA QUE O PROPÓSITO DOS INFOGRÁFICOS É ESCLARECER AS PESSOAS – NÃO PARA AS ENTRETER, NÃO PARA VENDER PRODUTOS, MAS SIM PARA INFORMAR. CONTUDO HOUVE UM PERÍODO, NÃO MUITO TEMPO ATRÁS, QUE DESIGNERS PERDEREM DE VISTA ESSA IMPORTANTE IDEIA; ESSES POUCOS ANOS ESTRANHOS QUANDO O MUNDO FICOU LOUCO POR INFOGRÁFICOS. 

 

 

Eu frequentemente me pergunto se nós olharemos para trás e seremos capazes de apontar o “Auge do Infográfico” ou se continuará um período não quantificável porém forte em nossa história. Talvez ele seja algo que iremos discutir em mesas de bar quando já estivermos mais pra lá do que pra cá, mais ou menos como aquele gol do Maradona. 

Os resumos chegam rápido e fervendo. Em dias bons, eles realmente se parecem com resumos. Eles vêm com dados dignos e alguma ideia sobre usuários ou audiência. Alguns dias eles vem apenas como pedidos vagos. Comunicados de imprensa, métodos de pesquisa meio dúbios, estatísticas sem fonte com pedidos para “deixar a coisa mais infográfica”. Como eu odeio essa palavra; todo o charme de uma forma extrema de enjôo. Não exatamente como os infográficos em si. Essa saga toda foi infeliz, mas de alguma maneira era inevitável. Uma resposta automática à vertiginosa era do “Big Data”. A narrativa saiu de férias por período indefinido e infográficos sem propósito ou audiência ficaram com o posto. Infográficos viraram uma língua visual própria. As regras eram mais ou menos essas:

  1. Gráficos radiais, gráficos de pizza, qualquer coisa redonda!
  2. Gráficos de pizza com inúmeros pedaços!
  3. Cascatas de cores! (Esqueça o contraste)
  4. Títulos em banners com todas firulas possíveis!
  5. Grandes porcentagens em corpos tipográficos condensados!
  6. Ícones! Homens engravatados, pilhas de dinheiro, pastas, engrenagens e lâmpadas!

 

Sites de venda se encherem da “templates legais de infográficos”. O estoico, constante gráfico de barras foi reimaginado como triângulos uma semana e como semicírculos na outra. Centenas de anos de princípios visuais aposentados. Qualquer um com uma cópia do Illustrator tinha vez. Era uma época animada para os amadores. Eu imagino que foi um tempo de muitos desafios para Edward Tufte. Tenho certeza que o pobrezinho passou noites em pânico.

O telefone continuou tocando, os estúdios ficaram maiores, os clientes mais prestigiosos, os problemas mais complexos. Dados eram o novo conteúdo e muitos designers não tinham a mínima noção de nada. Gráficos informativos já não informaram mais. Eles confundiam, eles te deixavam tonto, mas mais importante do que isso (pelo menos por um tempo) eles te vendiam coisas.

 

Eu posso ser anormal, mas eu sempre me recusei a aceitar a ideia de que vender coisas a pessoas seja a única coisa digna para se colocar energia criativa.

Bizarramente, eu acho que desenvolvi esse ponto de vista durante meus anos da escola de propaganda. Essa grande ideia estava viva e muito bem em 2002. O objetivo era trabalhar em “grandes contratos” em “grandes agências”. Eles trouxeram criativos presunçosos dessas agências, caras velhos e brancos (nenhuma mulher a vista) com golas altas e óculos com armações grossas. Eles vinham e nos contavam histórias sobre as melhores ideias que eles já tiveram. Todos riam, mas ninguém sabia exatamente o porquê. Em algum ponto haveria alguma referência sobre trabalhar voluntariamente. Isso, era explicado, eram as coisas bem intencionadas que você fazia para as pessoas que não tinham como pagar. Te liberava de impostos e garantia prêmio, mas não tinha como pagar os boletos com isso, então ninguém fazia por muito tempo. Era isso.

Eu passei verões estagiando nessas agências num estado permanente de pânico moral. Depois de três semanas sentada ao lado de Big Mac que tinha quase da minha altura, eu juntei o que restava da minha alma, coloquei na bolsa e jurei ativamente rejeitar essa versão da indústria criativa. Anos depois, em algum ponto durante o caminho que seguiu o Auge da Infografia, eu estava trabalhando em um painel de análise de dados para alguma corporação enorme e sem rosto quando me dei conta de que estava lá de novo. Eu estava sentada do lado do Big Mac. Eu prontamente me demiti e voltei para escola. Tirei um ano para aprender. Fiz trabalho pessoal. Dados foram meu medium meio. Eu explorei os dados abertos sobre a crise imobiliária. Eu usei isso para desenvolver uma publicação que colocasse a gentrificação num contexto local para minha comunidade. Eu dei workshops públicos sobre mapeamento, exercícios simples sobre dados que ajudaram pessoas a discutirem suas experiências em comunidade e desenvolvimento urbano. Eu desenvolvi mapas interpretativos para conectar crianças locais com a vida selvagem no leste de Londres. Eu comecei a mapear o exame feito pelos taxistas de Londres. Eu fiz o que eu não vinha me permitindo fazer em muito tempo: eu desenvolvi um ponto de vista e uma prática. Isso foi notado. Me ajudou a construir uma lista inteiramente nova de clientes que tinham problemas dignos de serem resolvidos. Eu percebi que muitas organizações precisavam de ajuda com seus dados, suas estratégias, seu design. Já que andavam muito ocupados. Eu trabalhei em contextos diversos, ricamente criativos e animados e em lugares que eu nunca achei que me encontraria. Eu contribuí em projetos que resolveram problemas fora do padrão.

Foi por essa época que eu comecei a dar aulas no Guardian Masterclasses, na Kingston School of Art e na University of the Arts London. Eu gostei de introduzir pessoas às possibilidades criativas que se tem ao trabalhar com dados. Toda vez, eu tento diminuir essa distância entre dados e pessoas.

Nós podemos brincar sobre o Auge da Infografia, e acredite em mim, nós brincamos, mas não é sem noção como nós frequentemente imaginamos. Ele cumpre seu papel introduzindo uma audiência mais ampla à linguagem visual dos dados. Ele fez todo mundo ter um pouco menos de medo “de números”. Desde o Auge tem uma comunidade cada vez maior de pessoas indo mais além e tirando mais dos dados e vendo como eles podem nos beneficiar. Organizações como DataKind estão aproveitando o poder dos dados científicos, servido à humanidade, criando ruas mais seguras, fazendo questões sociais serem mais visíveis, alavancando a inclusão financeira no Senegal usando um modelo preditivo (verdade, juro).

Giorgia Lupi tem introduzido um Manifesto para Dados Humanistas; uma chamada impressionante para a comunidade criativa começar a criar modos de conectar números com conhecimento, comportamentos e pessoas. Living Map está desenvolvendo novas plataformas de dados para os lugares mais ocupados e complexos do mundo – conectando pessoas com informação em horas e locais essenciais, nos levando além daquele equivocado ponto azul. Pessoas como Nicky Case estão usando teoria de jogos para nos ajudar a entender ideias complexas como confiança. Valentina D’Efilippo está mudando a maneira como escutamos David Bowie com o  OddityViz.Nesta está criando desafios de design para gerar soluções com dados, inovativas e sustentáveis para desafios sociais.

Informação é barata e onipresente em nosso dia-a-dia. Significado, no entanto, é caro e genuinamente digno de ser buscado. Quanto mais integrado o dado se torne, mais nós precisamos procurar oportunidades de conectar pessoas com dados de um modo mais significativo. Como criativos, é hora de buscar novas maneiras de colaborar e criar novos futuros criativos.

É hora de estarmos ansiosos pelas possibilidades que nos esperam.

por Laura Knight 

Designer

 

Laura é uma designer, reside em Londres. Se especializou em branding, design de informação e visualização de dados. Como consultora e treinadora, ela já trabalhou para o governo, instituições de caridade e marcas globais, ajudando eles a comunicar seus dados e informações e a desenvolver estratégias de comunicação baseadas na informação.

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