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Como superar o medo de se expor | Stacking The Bricks por Alex Hillman

É uma piada muito, muito cruel do universo que um dos maiores medos compartilhados pelas pessoas criativas é o ato de compartilhar em si. 

 

“Eu odeio aparecer”

“A ideia de construir um público me dá arrepios” 

“O que eu poderia ter a oferecer que já não foi dito?”

“Eu não quero fazer ou dizer algo de errado!”



Essa tendência que nos leva a uma espiral mental de medo se mostra em várias formas: 

 

  • Para uns, é um sentimento de desconforto sutil quando falam do próprio trabalho em situações sociais
  • Para outros, é um sentimento profundo de ansiedade que eles vão ser xingados por fazer ou falar algo que não seja original
  • Para alguns, é um sentimento de pânico associado ao ato de apertar o botão “publicar” para colocar o seu trabalho criativo, ou as suas opiniões, num palco digital



O seu pode ser diferente desses que aparecem aqui, mas se alguma vez esse sentimento já te atrapalhou, você sabe do que estou falando. 

Mas de onde vem esse medo?

Quase 100% das vezes em que algum dos nossos alunos ou leitores está hesitante em tomar uma atitude, um par de palavras muito específico dá as caras: 

 

“Eu sinto…”

 

Bom, eu não estou aqui pra te dizer que os seus sentimentos não são reais ou válidos – você tem todo o direito de se sentir como quer que você se sinta. 

 

Mas os seus sentimentos são só isso. Sentimentos. 

 

Quando há um perigo real presente, os seus sentimentos tipicamente estão lá pra te manter seguro e protegido. E ainda bem que estão lá. 

 

Mas e quando você não está em perigo, mas você se sente com medo? O que diabos está acontecendo com os seus sentimentos aí?

 

Exatamente os mesmos sentimentos de medo, pânico e ansiedade podem aparecer sem nenhum perigo real. Às vezes até com a mesma intensidade! 

 

Tudo o que precisa pra isso acontecer é uma experiência desconhecida. 

 

Essa experiência desconhecida faz o seu cérebro zerar os seus padrões, gritar “Eu não sei!”, e jorrar um monte de químicos que fazem o seu coração acelerar e as suas axilas suarem. 

 

Mas não para por aí. A coisa piora ainda mais quando a nossa imaginação entra em jogo e começa a inventar razões pro nosso corpo estar reagindo negativamente. 

 

A sua imaginação acorda e diz: “Nossa, nós não costumamos nos sentir assim tão mal a não ser que algo esteja realmente errado. O que será que está errado? Deixa eu pensar nas possibilidades…” 

 

…e agora você está numa espiral onde os sentimentos intensos e negativos podem acabar durando MUITO mais do que aquele momento inicial de incerteza.

 

Sinceramente, nossos cérebros podem ser uns grandíssimos babacas. 




Naturalmente, tudo isso está acontecendo em questão de frações de segundo. E pra grande maioria de nós, acontece fora do nosso entendimento consciente. Rápido, e invisível. 

 

É preciso muita prática pra começar a notar a diferença entre o que apresenta um perigo ou risco real, e quando são só os seus sentimentos fazendo a sua dancinha espiralar da ansiedade. 


Nota rápida: Se você tem acesso à terapia, ela pode ser uma grande ajuda nesse tipo de trabalho. Mas mesmo sem a ajuda de um profissional, você pode aprender a perceber esses padrões no seu comportamento e substituí-los com algo mais produtivo.

Como sequestrar seu cérebro e tomar controle dos seus sentimentos

Quando você começa a se expor, uma das fontes mais comuns de ansiedade vem da sensação de que “tá todo mundo me olhando, tomara que eu não faça merda!” 

 

Ou pelo menos é assim que parece. 

 

Na realidade, provavelmente ninguém tá vendo ou notando. Ou, se alguém está de fato vendo ou notando, esse alguém provavelmente está lidando com os seus próprios problemas e vai acabar esquecendo mais rápido do que você conseguiria terminar de ler esse artigo. 

 

O que você precisa lembrar sobre se expor é que o resultado MAIS PROVÁVEL é…nada. 

 

Isso pode não parecer uma coisa boa, mas vamos colocar em perspectiva. 

 

Nas primeiras 15 ou 20 vezes que você “se expõe” o seu cérebro está imaginando todo tipo de coisa boa que pode acontecer. Talvez o seu cérebro esteja imaginando todo tipo de coisa ruim que pode acontecer. 

 

Mas tem grandes chances de que o que vai acontecer é: vários nada.



É aí que mora a oportunidade

Se você calibrar a si mesmo para esperar nada (em vez de esperar o pior), você pode se permitir ficar positivamente surpreso quando um estranho na internet te agradece pelo seu comentário, ou compartilha o seu comentário, ou recomenda o seu trabalho. 

 

Se você calibrar a si mesmo pra apreciar o retorno mas fizer o trabalho mesmo se  você não ganhar nenhum feedback em troca, você pode se dedicar ao trabalho independente de como ele te faça sentir naquele momento. 

 

E fazendo o trabalho mais do que 15 ou 20 vezes é quando os sentimentos bons começam a aparecer, porque é aí que você começa a construir uma certa confiança. Você aprende o que funciona e o que não funciona, e a cada vez que você se esforça, você melhora um pouco. 

Fica mais fácil naquelas.

Você pode se surpreender com o fato de que mesmo depois de centenas de lançamentos, eu ainda sinto pontadas de ansiedade logo antes da hora H. 

 

Eu sei – por experiência própria – que existem muitas pessoas que podem se beneficiar do meu trabalho e várias pessoas que vão apreciá-lo. Eu sei que nenhum lançamento anterior causou mal real a mim ou aos outros. Eu sei que eu consigo aguentar um idiota aleatório mandando uma mensagem grosseira ou aleatória, e seguir com o meu dia. 

 

Mas eu também sei que os sentimentos são só sentimentos, uma reação química no meu corpo, e que a incerteza é perfeitamente normal e segura. 

 

Confiança não é algo que você tem no começo quando senta pra fazer algo novo. 

 

Confiança é o resultado de fazer algo por vezes suficientes para evoluir de se sentir incerto, para sentir que você sabe pelo menos o que esperar (mesmo que seja sem certezas). 



E então, o que acontece de fato?

Tudo que ensinamos no 30×500 te desafia a examinar as evidências que está disponível, e às vezes, bem na frente do seu nariz. 

 

Os fatos nus e crus. O que está de fato acontecendo agora na página ou na sala de reunião. O que as pessoas estão dizendo e fazendo, não o que você acha que elas diriam ou fariam. 

 

Então vamos examinar as evidências sobre se expor para o mundo: 

 

  • O que de fato acontece quando você se permite sentir o medo…mas faz o que te assusta, de qualquer forma? 
  • O que de fato acontece quando você publica um comentário, ou um artigo, mesmo que você sinta que tudo já foi dito? 



Sim, você pode perder tempo escrevendo aquele artigo ou aquele tweet, ou fazendo aquele vídeo. E perder tempo não é uma sensação boa, mas quantas horas você já “perdeu” (ou desperdiçou) atualizando sites de notícias, revendo a sua série favorita pela enésima vez, ou rolando a timeline infinitamente em desespero no Twitter? 

 

Sim, alguém pode estar dizendo algo maldoso na Internet, mas porque a opinião dessa pessoa importa? Se a crítica deles é válida (e lembrando que você não tem que partir do princípio que ela seja), você pode usá-la para melhorar o seu trabalho. 

 

Mas como já dizia a grande profeta Taylor Swift, Haters gonna hate hate hate hate hate hate.  Haters usam jogadas bem previsíveis, e você pode fazer o mesmo. 

 

E mais uma vez, a pior das hipóteses de verdade é a em que você se expõe, coloca o seu trabalho pra jogo, e ninguém diz absolutamente nada. E esse é um cenário bem ok considerando a grande gama das piores hipóteses possíveis! 

Tente fazer um “autosafari”

Quando você começar a notar que está se sentindo de algum jeito específico (com medo, ansioso, preocupado), tente fazer um pouco de “autosafari” situacional. 

 

Qual é a real causa da dor que você está sentindo? É uma preocupação sobre algo que pode acontecer, que já aconteceu no passado, ou tem algo realmente acontecendo agora nesse momento? 

 

Se a resposta é “ah, eu tô só me sentindo assim”, pergunte a si mesmo o que você tem a perder se NÃO tomar uma atitude apesar dos seus sentimentos. 

 

Se você começar a usar essa linha de autoquestionamento, você provavelmente vai começar a notar que a resposta praticamente nunca vai ser “puta merda, tem algo realmente errado acontecendo aqui” a não ser que você seja fundamentalmente uma pessoa terrível fazendo coisas terríveis. 

 

E ainda assim, considere o fato de que o mundo tem uma boa dose de pessoas realmente terríveis fazendo coisas realmente terríveis que ninguém nota. 😂




Quatro injeções sobre botar seu trabalho na rua

Nós queremos falar bem e ter uma boa aparência, o que muitas vezes quer dizer que nós supervalorizamos ideias novas e frescas em comparação às já testadas e validadas. Isso também significa que nós supomos que se já foi feito antes, vão nos expulsar da sala de reuniões rindo por não sermos originais. 

 

Quando VOCÊ sabe algo, quando é ÓBVIO pra você, e quando você já ouviu falarem disso mil vezes, todo mundo que não é um idiota completo certamente também já deve saber esse algo, certo? 

 

Só que não existe prova nenhuma disso, e UM MONTE de dados que provam o contrário. 



NOVOS NOVATOS SÃO CUNHADOS TODOS OS DIAS

 

Tem gente nova entrando no seu campo todos os dias. Muitas dessas pessoas provavelmente estão ouvindo coisas pela primeira vez, e a primeira vez delas pode ser ouvindo algo de você! 

 

PODEM EXISTIR MUITOS RECURSOS, MAS NÃO SUPONHA QUE ELES SÃO EFICAZES

 

Muitas pessoas são bastante ineficientes em comunicar o que elas sabem. Mesmo que elas tecnicamente saibam mais, ou tenham mais experiência, a forma como elas se comunicam pode afastar os leitores (ou fazer com que eles se sintam burros por não saber aquilo ainda), o que abre espaço pra que você faça um trabalho melhor, com mais compaixão, em ter certeza de que o leitor se sente compreendido. 

 

O SEU PONTO DE VISTA É ÚNICO O SUFICIENTE

 

Você sempre vai ter o SEU ponto de vista e experiência e vivências. Será que elas são 100% perfeitamente únicas e singulares no mundo inteiro? Talvez sim, talvez não. Mas as chances desse ponto de vista ser idêntico ao de outra pessoa com o mesmo conhecimento no mesmo momento e estar na frente da mesma pessoa são praticamente nulas.

 

A ORIGINALIDADE É SUPERESTIMADA

 

E mais: por que nós supervalorizamos ser “único” e original, afinal de contas? Se o receptor precisa de uma coisa, e você fornece essa coisa, será que ele se importa se alguém lá fora disse ou fez o mesmo? 

 

Agora pergunte a si mesmo o seguinte: quantas pessoas você acha que estão vivendo com todo tipo de problema, grande ou pequeno, que sentem que ninguém no mundo as entende ou nem está tentando ajudá-las? 

 

Imagina se você encontrasse essas pessoas e simplesmente…as ajudasse. Ou vire ao contrário. E se você as encontrasse…e aí não ajudasse ninguém. Você deixou todas elas sofrendo sozinhas, mesmo podendo ajudar.

 

Olhando por essa lente, começa a ficar claro que NÃO se expor pro mundo lá fora acaba sendo a pior escolha de todas. 

 

Não só pra você, mas pra qualquer pessoa que você possa vir a ajudar. 

 

AINDA PRESO NA SUA PRÓPRIA CABEÇA?

 

Quando todo o resto falhar – quando você se pegar passando tempo demais na sua própria cabeça, eu tenho um último truque pra você. 

 

Passe um tempo tentando entender como outra pessoa está se sentindo.

 

A metodologia do Sales Safari é ótima pra isso, especialmente se você for mais introvertido. A boa e velha conversa também funciona bastante. 

 

Então, por agora, esqueça “construir um público” por um momento. Só ouça alguém que precisa de ajuda, e veja se você pode ajudar.

 

Construção de público soa tão pesado. Em vez disso, tente pensar em termos de “conquistar confiança em escala”. 

 

Sempre que eu estou preso na minha própria cabeça, eu tento entrar na cabeça de outra pessoa por um tempo. Eu coloco meu esforço em entender a situação dessa pessoa, realmente ouvindo e me sensibilizando. 

 

É um calmante quase meditativo, e vem com muitos benefícios paralelos no sentido de conquistar confiança. 

 

Se você puder fazer isso em público, é o ideal. Se você não pode trabalhar em público, trate isso como prática para quando você puder ou, no fim, peça a permissão deles pra compartilhar trechos da sua conversa e escale os seus conselhos transformando-os numa bomba eletromagnética de conteúdo. 

 

E aí repita o processo. De novo. E de novo. 


Porque você precisa lembrar que a confiança não é algo binário. Não é algo que você tem ou não tem, é um espectro que você navega através da experiência prática. 

 

E você certamente não vai construir confiança continuando a evitá-la.



*Esse texto foi escrito por Alex Hillman, do Stacking The Bricks. Publicado originalmente aqui e traduzido para o português pela equipe da Fábrica do Futuro. 




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