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Como o blog quebrou a web | Stacking The Bricks

por Amy Hoy

Eu comecei a usar a internet em 1993, na época em que Web tinha letra maiúscula – três, na verdade – e bem antes da ironia esticar as suas pernas e desabotoar a sua camisa de flanela. Quando você podia realmente dizer que estava surfando na net.

 

E a primeira coisa que eu fiz quando eu entrava na internet, toda vez, por anos era acessar o What’s Cool do Netscape. O What’s Cool se dizia a melhor forma de aprender quais novas páginas da web legais tinham aparecido…na internet INTEIRA. E por um momento, ele realmente era.  

                        

A Web era tão pequena naquela época. Tão pequena que era concebível que alguém poderia manter uma lista de todos os sites. E realmente era novo e descolado usar uma webcam de 1-frame-por-minuto para espionar uma cafeteira em outro continente ou clicar num Grande Botão Vermelho Que Não Faz Nada. 

 

Naquela época, a gente não tinha plataformas ou feeds ou redes sociais ou…blogs. A gente tinha homepages. Os fundos eram cinza. A fonte, Times New Roman. Links poderiam ter qualquer cor contanto que ela fosse azul médio. O grupinho popular não tinha rolagem parallax…mas eles tinham gifs de régua horizontal. 

 




Ela suga tempo, energia e motivação que você poderia estar usando para construir os seus sonhos. Conteúdo de qualidade te bota pra cima, te apoia, te ensina habilidades valiosas, te ajuda a pensar de formas novas e diferentes, te ajuda a implementar, te ajuda a desenvolver hábitos melhores, te dá uma noção de onde você está e para onde você está indo…quer você se enquadre no público-alvo do autor ou não. 

Para te ajudar a separar o trigo da pornografia de empreendedorismo, eu fiz esse fluxograma super útil. Se você é do tipo que se perde numa teia de links (como *cof cof* eu), talvez seja bom você deixá-lo bem na sua frente! Você pode imprimir uma cópia e colocá-la no seu caderno ou no seu quadro branco.

Supondo que você soubesse um punhado de tags, demorava mais ou menos um minuto para criar uma nova página da web. Não existiam bases de dados pra configurar. Nenhum script pra instalar. Não tinha plugin, nem patches de segurança. Não havia cookies. Nem iframes, nem linguagens de scripting “web-first”, nem aplicativos para web. 

Nós construíamos cada nova página à mão. Quando nós tínhamos mais que uma página da web, nós construíamos a navegação à mão. Nós gerenciávamos a nossa Tabela de Conteúdos à mão. Nós puxávamos as calculadoras para programar os limites dos nossos mapas de imagem. Nós falávamos sobre “hyperlinks” sem nenhuma ironia.

Quando nós atualizávamos uma página, nós jogávamos um íconezinho de “NOVO” nela. 

E links que não eram novos? Bom, você clicava neles, e depois eles ficavam roxos.

 Não existiam duas homepages iguais. Com certeza não existiam coisas como Sistemas de Gerenciamento de Conteúdo. Mas isso não quer dizer que o conteúdo da homepage não era gerenciado. 

Uma homepage bem organizada era um sinal de orgulho pessoal e profissional – mesmo se ela não fosse nada além de uma coleção de gifs, ou instruções sobre como fazer a melhor arminha de batata, ou uma pesquisa no Homebrew sobre a genética do esquilo da mongólia. 

Datas não importavam tanto assim. O conteúdo durava mais, tinha menos conteúdo. Conteúdo mais antigo continuava em voga, também, porque a metáfora dominante era mais tabela de conteúdos do que um trecho de um diário.

Todo mundo que tinha uma homepage se tornava uma bibliotecária amadora, de fato. 

Mas é claro que isso não durou muito.

Em 94, um estudante universitário chamado Justin Hall saiu do formato de tabela de conteúdos. Ele adicionava ao topo da sua homepage diariamente, e ele intitulava cada seção com a data. Ele compartilhava tudo: desde links interessantes que ele encontrava até os seus experimentos com sexo e drogas. 

Links do Justin se tornou o primeiro webdiário, de fato, diário. 

Era assim que eles se chamavam na época…webdiários. (O nome weblog veio alguns anos depois, à medida em que  alguns dos seus autores se afastavam dos assuntos extremamentes pessoais.) A maioria dos diários existia como uma seção separada linkada da homepage pessoal normal do escritor em questão. Os trechos do diário ficavam dispostos ou como conteúdo em linha, como o do Justin, ou individualmente linkados de uma página de índice. 

Mas aqui estava a grande partida: as entradas, sejam em linha ou linkadas, não eram organizadas por conteúdo ou primazia ou importância ou categoria. Elas estavam sempre em ordem cronológica reversa. 

Os diários em si eram assim: 

Eles eram, como web em si, esquisitos e altamente pessoais, muitas vezes confessionais em estilo. Era tudo muito Microserfs. 

Mas não era muito popular. 

Quando jjg compilou a sua lista de “web logs” no início de 1999, só tinham 23. Isso não é um erro de digitação: Vinte e três, vinte e três web logs na internet, ha ha ha. Sem dúvidas ele errou esse cálculo – vários blog tinham vivido e morrido a essa altura, inclusive o meu – mas ele errou por qual múltiplo? Cinco? Dez vezes? Então havia o que, talvez 230 web logs? 

*Nota da tradutora: jjg se refere ao desenvolvedor Jesse James Garrett, pioneiro nos weblogs e autor do livro “Os Elementos da Experiência do Usuário”. Saiba mais sobre ele aqui.

 

Lá pelo fim do ano 2000, existiam ainda apenas 1,285 de acordo com o Eatonweb. As mesmas ressalvas se aplicam a esse número, é claro, mas falando sério…

O mundo dos “weblogs” era pequeno.

Os primórdios da web em si, claro, era bastante exclusivo: primeiro, você tinha que estar online, aí você tinha que saber HTML, e isso não era suficiente, você ainda tinha que ter uma conta de hospedagem e saber como usá-la. Não existia caminho fácil. Cada Cidadão da Net™️ tinha que desbravar o seu próprio caminho. 

Mas existiam milhares e milhares de páginas pessoais a mais do que weblogs. Homepages tinham uma qualidade atemporal, um índice de coisas interessantes ou úteis sobre um assunto ou uma pessoa. Você não atualizava uma homepage todos os dias em busca de novidade. (Era pra isso que o What’s Cool do Netscape existia!)

Conteúdo cronológico era a minoria. A Internet na época era principalmente populada por acadêmicos, profissionais e estudantes universitários. Nem todo mundo tinha o desejo de publicar a sua poesia angustiada, aventuras sexuais ou hábitos de surf numa frequência diária; o outro limitador no conteúdo cronológico era o simples tempo e energia que isso demandava. Ter um diário online era uma trabalheira do cão. Primeiro você tinha que ter algo a dizer, e aí escrever, editar, formatar, adicionar clipart, editar o seu index.html, editar quaisquer links de prev/next, checar esses links, e, finalmente, subir os arquivos. 

Era chato, tedioso e trabalhoso.

E isso não mudou quando o Blogger e o Livejournal entraram em cena em 1999 – o mesmo ano da lista de 23 do jjg. Nenhum dos dois foi um sucesso imediato. Para pioneiros acostumados ao poder do HTML livre, as suas funcionalidades limitadas e falta de controle causaram atrito. 

O primeiro movimento real veio em 2001. Foi aí que estreou uma invenção que iria revolucionar a maneira como pessoas ao redor do mundo distribuíam o seu conteúdo escrito: o Tipo Móvel. 

Não, não aquele da época do Gutenberg. Esse: 

MovableType não foi a primeira ferramenta a facilitar a publicação rápida para a web, mas foi a primeira ferramenta poderosa que era atraente para os ajustadores, a galera do DIY, a galera do WebMonkey. Também era o primeiro CMS baseado na web que você poderia baixar de graça, instalar, e rodar no seu próprio host da web. Era a primeira alternativa viável a todo aquele trabalho braçal. Ela tornava o processo de atuar um weblog fácil. Sem abrir mão do controle total. Foi o primeiro CMS que muitas pessoas tocaram, eu inclusa. 

Como tantos fãs dos primeiros diários online, eu acompanhei as aventuras e epifanias de Mena Trott. “Her Dollar Short” começou parecendo o seu weblog básico: funcional, sem frufrus, muitos posts numa única página porque jura que você vai fazer todos esses arquivos diferentes à mão. Basicamente, ele era feio. 

Era simplesmente coisa demais fazer todo aquele trabalho e fazer com que ele brilhasse. 

Mas um belo dia, ele ficou bonito. E simplificado. Tão minimalista!

Era impressionante. Era como viver a sua vida toda numa casa normal atrolhada de coisas num subúrbio normal e chato cercado de pessoas normais com suas casas normais atrolhadas de coisas e aí um belo dia, acordar e se dar conta que você está numa edição da Architectural Digest. 

As pessoas podem viver assim? Eu poderia viver assim?

E ali, a resposta, no final de uma página simplificada e fresquinha, estava um pequeno escudinho – lembra dos escudos? – sussurrando: Powered by Movable Type.

A implicação era clara: Essa beleza sem preocupações pode ser sua. 

Quem poderia resistir? 

O Movable Type não foi uma revolução, tecnicamente falando. Não era um aplicativo live web como os CMS’s de hoje, ele não servia conteúdo dinâmico. Ele não era chique. Tudo que ele fazia era explorar o poder dos scripts Perl para fazer exatamente o mesmo trabalho que nós todos costumávamos fazer à mão: cuspir arquivos HTML estáticos. Já culturalmente, ele foi devastador. 

De repente as pessoas já não estavam mais criando homepages ou mesmo páginas da web, mas elas estavam escrevendo conteúdo para a web em campos de formulários e áreas de texto dentro de uma página da web.

De repente, em vez de construir o seu próprio sistema, elas estavam trabalhando dentro de um. Um sistema que outra pessoa construiu. 

Ah, é claro que você poderia customizar o seu site criado no MovableType. Tudo que você precisava fazer era programar os templates. Era mais difícil que HTML, mas não muito mais para alguém que já mantinha o seu próprio site. E se você não pudesse programar sozinho, bom, você poderia copiar e colar trechos. Parecia que toda a (pequena) blogosfera estava compartilhando os seus favoritos. Barras laterais de calendário pra todo mundo!

Só tinha um problema…Era uma armadilha. 

Aqueles calendáriozinhos de barra lateral eram isca. Aqui está o x da questão: Quando algo é fácil, as pessoas vão fazê-lo com mais frequência. Quando você produz o seu site inteiro à mão, de HEAD até /BODY, você começa num mundo de infinitas possibilidades. Você pode ajustar o seu conteúdo exatamente como você gosta, e organizá-lo da forma que bem entender. Cada decisão de design que você fizer representa praticamente o mesmo tempo de trabalho, porque bom, você tem que fazer à mão de qualquer forma. Seja entradas em ordem cronológica reversa ou uma tabela de conteúdos super organizada. Vale mais você fazer o que quiser mesmo. 

Mas uma vez que você ganha uma ferramenta que opera sem esforço – mas só de um certo jeito – cada escolha que desvia do padrão representa um custo maior. É isso que aconteceu quando o Movable Type comeu a blogosfera. 

A produção de homepages de repente se tornou uma questão de economia: 

  1. Usar o formato padrão do sistema: zero trabalho
  2. Customizar o sistema para o seu formato: muito mais trabalho que o HTML puro alguma vez foi

E quem, tendo a opção do caminho com menos resistência, tem a energia para lutar até o fim? 

O formato venceu. Era mais fácil – mais rápido! – literalmente ir com o fluxo…do tempo. O Movable Type foi criado por blogueiros que escreviam entradas de diário todo santo dia. A forma seguia essa função rigorosamente. Longe de ajudar a organizar ou gerenciar conteúdo de forma livre, o formato era rígido: título, categoria, entrada. E além da entrada singular em si, você só tinha quatro opções para o tipo de página: diária, semanal, mensal e, incrivelmente, categoria. 

Mas dentro daquele arquivo organizado por categoria, os posts eram rankeados por data. Automaticamente. Sem necessidade (ou permissão) para a contribuição humana. 

E assim começou a Era da Organização Cronológica. Ou, como eu gosto de chamar: CHRONOS CONTROLA TUDO AO MEU REDOR. 

O Movable Type não só matou a customização de blogs. Ele e seus concorrentes ativamente mataram outras formas de produção para a web. Não-diaristas – aquela galera com as homepages old school no estilo bibliotecária – queriam aquelas barras laterais com calendário super legais que nem os blogueiros. Eles foram enfeitiçados pela sirene do uso fácil. Então apesar do fato de que eles não estavam escrevendo diários, eles investiram tempo e esforço em migrar para essa nova plataforma. 

Eles logo aprenderam que o fluxo cronológico era um servo decente, mas um mestre terrível. A garota da arminha de batata e o cara da genética do esquilo da Mongólia descobriram que eles não queriam escrever atualizações. Não fazia o menor sentido. Os sites deles deveriam ter se mantido uma tabela de conteúdos, uma ferramenta de referência, uma biblioteca pessoal esquisita e ligeiramente mofada…o formato de novas “postagens” simplesmente não funcionava para o que eles queriam fazer. Ele parecia opressivo e exigente. 

Mas eles já tinham migrado. Eles já tinham passado todo aquele tempo e gastado toda aquela energia e otimismo. Para trocar de volta, eles teriam que passar por todo esse processo de novo. Só que agora seria pior, é claro, porque eles teriam que construir o novo (velho) site completamente do zero. Eles não tinham nenhuma ferramenta para dar forma a ele. 

E uma vez que você sentiu o gostinho de atualizações sem esforço, é incrivelmente difícil voltar a fazer tudo manualmente. Então eles não voltaram. E os seus milhares de pares também não voltaram. Simplesmente não valia a pena. A inércia era forte demais. 

A web antiga, a web legal, a web esquisita, a web organizada à mão…morreu. E o raio do viés da cronologia reversa – uma vez criado, ele jamais seria saciado – procurou sua próxima vítima. Myspace. Facebook. Twitter. Instagram. Até o Pinterest. Hoje em dia essas ferramentas de publicação social estão começando a resistir à organização cronológica reversa, eles estão introduzindo a organização por algoritmo, para mostrar conteúdo não baseado em tempo postado mas em popularidade, ou interações esperadas, baseadas no histórico individual e coletivo. Existe ainda menos controle. Menos controle do que já tivemos em toda a história. 

Não existem mais homepages esquisitas. Não existem mais pesquisadoras bibliotecárias amadoras. Tudo graças a uma peça de software estranha produzida para aliviar a dor de uma pequena parcela de um público muito pequeno. Isso não é nada legal. 

 

 

Originalmente escrito por Amy Hoy para o Stacking The Bricks.

Traduzido para o português pela equipe da Fábrica do Futuro.

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