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FSC Mag | A vantagem colaborativa e a sobrevivência do mais simpático

PAUL SKINNER DESAFIA O AMPLAMENTE ACEITO MANTRA DOS NEGÓCIOS “VANTAGEM COMPETITIVA” E NOS PERGUNTA SE NÃO É, DE FATO, A COLABORAÇÃO QUE LEVA AS GRANDES ORGANIZAÇÕES AO SUCESSO.

Colabore ou morra?

Vamos levar isso ao pé da letra.

Quando eu tinha seis anos de idade eu vi meu pai sobreviver a um infarto massivo seguido de uma internação que durou um ano, ele conseguiu sobreviver graças a um dos primeiros transplantes de coração. Coisa que só foi possível graças a inúmeros atos de colaboração, essenciais entre o que foi um ato individual para salvar uma vida com uma cooperação ponto-a-ponto, tudo isso bem antes de termos acesso à internet ou as redes sociais, sem nada de “Sharing Economy”, tudo isso foi graças a um motociclista que foi atencioso o bastante para carregar um cartão indicando que seria doador de órgãos. 

Mas qual é o papel mais amplo que a cooperação tem em nosso êxito evolutivo?

A “sobrevivência do mais apto” depende da vantagem evolutiva dessas opções superiores na natureza. Mas, qual seria o processo através do qual essas diversas opções são criadas? Mais um “netflix and chill” pela sobrevivência do que um “clube da luta” pela sobrevivência, certo?

Além disso, o que nos faz unicamente exitosos no processo evolucionário como humanos quase nunca é nossa capacidade de competir: nem Usain Bolt conseguiu vencer de um jaguar (mas agora, se você pedir para um jaguar organizar uma corrida beneficente….).

É a nossa capacidade de cooperação que nos separa das outras espécies, em tudo desde nosso longo período de cuidados com nossos infantes, nossa linguagem unicamente complexa até nossa excepcional capacidade de espelhar padrões de sentimentos e comportamentos um dos outros. De acordo com uma pesquisa recente feita por Dan Sperber e Hugo Mercier, por exemplo, até nossa capacidade de racionalizar se desenvolveu menos como uma máquina para achar as respostas certas e mais como um mecanismo social para justificar nossas propostas durante negociações. 

E ainda assim nós parecemos esquecer disso quando entramos no mundo dos negócios, onde o conceito de “Vantagem Competitiva” e a ampla metáfora de competição e competitividade domina nossa entendimento sobre como criar nosso sucesso e sobre como conduzir a criação de valor econômico.

“A “sobrevivência do mais apto” depende da vantagem evolutiva dessas opções superiores na natureza. Mas, qual seria o processo através do qual essas diversas opções são criadas? Mais um “netflix and chill” pela sobrevivência do que um “clube da luta” pela sobrevivência, certo?” 

Ideias disseminadas como essa podem se mostrar como formas inesperadas de nos trazerem desvantagens, especialmente quando nós usamos elas de forma inconsciente. Elas se infiltram nas nossas suposições centrais e uma vez no subconsciente nós não podemos mais vê-las e, assim, fica difícil lutarmos contra elas. 

E assim elas  limitam profundamente as oportunidades que somos capazes de perceber, como pensamos sobre essas oportunidades e como agimos acerca delas e, por sequência, influenciam no que somos capazes realizar. 

Em meu livro ““Vantagem Colaborativa: como a colaboração vence a competição como forma de estratégia para o sucesso”, eu sugiro que a metáfora da competição cria uma percepção contraprodutiva da relação entre um negócio e o ambiente em que ele opera, o que pode levar a valores não concretizados. 

Isso prontamente reforça a ideia que nós, dentro do negócio, somos os criadores de valor e que o sucesso vem a partir do que somos capazes de fazer com o mundo baseado nos nossos próprios esforços e não como um ato de cooperação que alinha as necessidades, desejos e ações de potencial criação de valor de negócios, clientes e comunidades. 

Esse pensamento limitado até hostiliza nosso uso da linguagem: uma palavra de senso comum como “consumidor”, por exemplo, tacitamente revela uma percepção de venda para pessoas cuja agência humana pode de alguma forma se limitar à sua capacidade de diminuir, em poucas unidades, a oferta mundial de qualquer recurso que esteja vendendo.

A radical abordagem alternativa da “Vantagem Colaborativa” que eu proponho, cria a oportunidade para nos fazermos perguntas diferentes e também um resultado que pode nos trazer novas respostas:

  • – Como podem os negócios crescerem mais rapidamente aproveitando mais plenamente o potencial da criação de valor do ambiente em que eles operam e dos seus clientes, enquanto se mantém criadores ativos do seu próprio valor?
  •  
  • – Como podemos melhor abordar desafios sociais através de um aproveitamento maior da nossa agência coletiva e, particularmente, a agência daqueles grupos que procuramos apoiar?
  •  
  • – E quais métodos e técnicas pode tornar mais fácil e mais acelerado esse processo?

Vamos restaurar o propósito humano nas histórias que contamos a nós mesmos na forma de estratégias organizacionais e aproveitar melhor nossa capacidade inata de cooperação como modo de cumprir esse objetivo. Talvez seja a melhor chance que temos.

Paul Skinner 

Autor 

Paul Skinner é o autor de “Vantagem Colaborativa: como a colaboração vence a competição como forma de estratégia para o sucesso” publicado pela editora Little Brown Book Group e disponível em todas boas livrarias. Paul é um consultor de estratégia e o fundador da Pimp My Cause.

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